Ágatha Santos, artista visual e arte-educadora formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), tece em suas telas uma narrativa que transcende o meramente estético
Há histórias que não cabem em palavras. Há histórias que precisam de tinta, de cor, de pinceladas que atravessam a alma de quem cria e de quem observa. As microlentes de dispositivos que permitem encurtar a distância de 900 km que separam Vitória (ES) e São Paulo (SP) revelam que do outro lado aparece sorridente e vibrante, uma jovem mergulhada em seu ateliê. Foi assim que tive acesso a história dessa artista plástica, que você vai conhecer agora.
No vibrante e complexo cenário da arte contemporânea brasileira, emerge essa voz que se recusa a ser silenciada pelas convenções, uma voz que sussurra e grita simultaneamente através das cores e das formas. Ágatha Santos, artista visual e arte-educadora formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), tece em suas telas uma narrativa que transcende o meramente estético, mergulhando nas profundezas da experiência humana com uma sensibilidade rara.

Sua obra é um convite a um olhar mais atento, mais sensível, sobre o cotidiano, a espiritualidade e a potência do feminino, uma jornada que se materializa em cores vibrantes e formas que ecoam a própria vida, pulsante e inquieta.
A gênese da artista plástica
Olhar de uma criança que decide criar
A trajetória de Ágatha começa cedo, em um momento que ela honra profundamente: quando a criança descobre a arte e decide que quer ser artista. Não é uma decisão casual ou uma brincadeira passageira; é uma escolha que marcará toda a sua vida.
“Eu sempre gostei de pintura, sempre foi minha paixão desde a minha infância”, revela Ágatha. Essa paixão não era apenas um interesse vago; era algo que pulsava dentro dela, que a chamava.
No Ensino Fundamental, ela teve o contato decisivo com a pintura através do professor Israel Scardua, um artista e educador que desenvolveu um projeto na escola Alberto de Almeida, em Vitória. “Eu já via pintura na escola, mas foi o meu contato com fundamentos, princípios básicos de pintura para a minha idade, né? Eu era o quê? Quarta, quinta série por aí”, recorda.
Esse encontro foi transformador. Não foi apenas uma aula; foi uma revelação. Ágatha compreendeu que havia um caminho, que havia pessoas que dedicavam suas vidas à criação, que havia uma possibilidade de ser artista. E naquele momento, uma criança de dez ou onze anos decidiu seu futuro.
Essa decisão da criança é sagrada para Ágatha e ela explica o porquê:
“Eu valorizo muito o olhar da criança sobre arte, porque às vezes a criança fala que ela quer ser uma coisa e a gente pensa assim: ‘ah, é criança’, mas pode ser realmente aquele o sonho dela, porque assim foi comigo”, afirma com convicção.
O caminho para as Artes Plásticas
Antes de chegar à universidade, Ágatha tomou um caminho que, à primeira vista, parecia um desvio. Com receio de fazer vestibular, escolheu fazer um curso técnico em design de interiores. Mas essa não foi uma escolha aleatória; foi estratégica.
“Eu vi que a grade inicial era desenho de observação, perspectiva, pontos de fuga, tudo muito parecido, composição, muito parecido com a grade do curso de arte na Universidade Federal aqui de Espírito Santo”, explica.
Ágatha atuou um pouco como designer de interiores, mas a pintura continuava a chamá-la. Por isso, entrou no curso de Artes Plásticas na UFES, não em Artes Visuais. Essa escolha também foi deliberada: “Eu escolhi artes plásticas, não escolhi visuais, porque eu sempre gostei da prática. Então, o meu objetivo inicial era realmente ser artista, não ser arte educadora”.
Ela havia chegado onde queria estar. Ou assim parecia.
O bloqueio
Antes de pintar com a força que pinta hoje, Ágatha Santos passou por um silenciamento. No primeiro período da universidade, algo aconteceu que mudaria completamente a sua trajetória.
“No meu primeiro período eu tive um bloqueio artístico muito forte, e isso se perpetuou até o final do meu curso”, confessa Ágatha. Mas o que causou esse bloqueio? Uma crítica. Uma única frase de uma professora que, aparentemente, não estava tendo um bom dia.
Ágatha apresentou um trabalho – uma árvore colorida. E a resposta foi devastadora: “Ela me falou: ‘Você não é a primeia e não será a última caloura a me mostrar uma árvore colorida. Nada original”. Essa crítica, aparentemente simples, penetrou fundo.
Ágatha interpretou como um veredito sobre sua capacidade como artista:
“Aquilo me fez pensar: ‘eu não sei desenhar, eu não sei pintar, porque eu não sei fazer algo original’. Foi o que eu imaginei com a fala dela, que só seria arte se fosse algo original. Aquilo me frustrou muito”.
Essa é uma história que muitos artistas conhecem. Uma crítica que chega no momento errado, de uma pessoa errada, em um tom errado, e que se torna uma ferida que não cicatriza facilmente.
Ágatha não abandonou o curso, mas abandonou a prática.
“Fiz o que eu tinha obrigatória de prática. E depois eu fui experimentando várias práticas. O que foi muito bom, porque aí eu fui fazer serigrafia, fui fazer outras coisas. Mas tomei pavor de pintura”.
O refúgio na teoria
Durante os anos em que não pintava, Ágatha Santos se refugiou na teoria. Era seguro, era intelectual, era longe da vulnerabilidade de criar algo que pudesse ser julgado como ‘não original’ novamente.



Mas esse refúgio não foi uma fuga vazia; foi um mergulho profundo em história da arte, filosofia, crítica. “Me apaixonei por história da arte e fui para a parte da teoria”, revela.
Ela começou a acompanhar os processos criativos de seus colegas de curso. “E comecei a estudar muito e acompanhava processos criativos de amigos, do curso, conversava com os meus colegas de curso sobre o processo criativo deles para virar a crítica de arte”, explica.
Mas Ágatha compreende agora que esse período não foi um tempo perdido. Longe disso.
“Nesse período que eu fiquei sem a prática artística, não foi num todo ruim, porque eu comecei a ler teóricos, foi aí que eu comecei a ler filosofia da arte, que fui ler história da arte, então eu aprendi muito sobre esse percurso”.
Ela não era pintora naquele momento, mas era algo igualmente importante: era uma pensadora sobre arte.
“Então eu não fazia arte, eu não era pintora, mas eu gostava de contemplar obras, eu gostava de pensar sobre o significado das obras, eu gostava de ler um pouco sobre filosofia da arte”.






Essa base teórica, essa compreensão profunda de história da arte e filosofia, seria crucial para quando ela finalmente voltasse à pintura. Não voltaria como a mesma pessoa que havia sido bloqueada; voltaria como alguém que havia pensado profundamente sobre o que significa criar.
O divisor de águas
No último período da universidade, Ágatha conheceu uma professora que mudaria tudo. Seu nome era Cláudia França, artista e professora da UFES, conhecida por suas instalações maravilhosas. Cláudia viu em Ágatha algo que ela mesma não conseguia ver: potencial, força, uma artista que estava apenas esperando permissão para voltar.
E então vem a conversa que mudaria tudo. Cláudia não ofereceu pena ou simpatia; ofereceu desafio e fé.
“E a Cláudia falou assim: ‘quando você terminar o seu curso, você vai pegar o que tem de tinta, de papel e você vai se dedicar à pintura. Se você não conseguir desenvolver o desenho no primeiro momento, como você gostaria, eu quero que você prometa que não vai desistir. Eu quero que você se perdoe por isso e prometa não desistir. A não ser que isso deixe de te dar o prazer que você me disse”, relembra Ágatha.
Essas palavras foram um bálsamo. Não era uma promessa de que tudo seria fácil; era uma promessa de que era permitido tentar, que era permitido falhar, que era permitido não ser perfeita no primeiro momento. Era permissão para ser humana, para ser artista em desenvolvimento.
Essa promessa plantou uma semente. Mas a semente só germinaria quando a vida a colocasse diante de um sentimento que não poderia ser contido em textos teóricos. Algo que precisava de cor. Uma coisa que precisava de pintura para transbordar.
A varanda
Quando seu pai ficou doente, tudo mudou. Havia ali uma dor inexplicável, um sentimento grande demais para o que qualquer teoria podia nomear. E foi então que ela pegou as tintas velhas. Ela se lembra disso como se fosse hoje — uma varanda da casa, um cavalete velhinho, bem amador. Ela estava pintando quando seu pai chegou.
Em vez de questionar, em vez de criticar, ele disse algo simples e transformador:
— Você faz isso muito bem. Você devia fazer mais isso.
Ágatha respondeu com as desculpas que todos os artistas conhecem:
— Ai pai, não faço não. Não sei pintar, não sei desenhar, minhas tintas estão velhas.
Mas seu pai insistiu:
— Não, mas você tem que fazer mais isso, porque você faz isso muito bem.
Não era apenas um elogio. Era uma validação. Era a primeira pessoa que olhava para o que ela estava criando — naquele momento de dor, de vulnerabilidade — e dizia que era bom. Que era importante. Que ela deveria continuar.
O que ela encontrou naquele momento é algo que muitos artistas nunca encontram: uma testemunha. Seu pai não apenas a apoiava; ele a via criar. Ele estava presente.
Quando ele faleceu, Ágatha fez com a herança o que ele sempre pediu que ela fizesse.
“Eu me lembro que o dinheirinho que ele deixou pra gente, eu peguei e a primeira coisa que eu fiz — e fiz por ele — foi montar o meu ateliê. Eu comprei um cavalete decente, eu comprei as tintas, eu comprei suportes, eu comprei telas, porque ele me falava que eu tinha que fazer mais isso.”

Aquele cavalete velhinho da varanda havia se tornado um ateliê. A promessa feita a Cláudia França havia se tornado prática. E a artista que uma crítica tentou silenciar havia, finalmente, encontrado sua voz — na voz simples de um pai que a viu pintar e disse que era bom.
A escrita de Ágatha Santos como rito de passagem
Validada pela voz mais simples que conhecia, ela precisava agora encontrar a sua própria. Antes de qualquer pincelada tocar a tela, há um rito, uma pausa sagrada para a palavra. O processo criativo de Ágatha Santos é um testemunho de uma artista que compreende profundamente a necessidade de organizar o caos interno antes de transformá-lo em arte. Ela não começa com o pincel; começa com a caneta, com a escrita como um método de clarificação e compreensão.
“A escrita é um modo de organizar o sentimento antes de materializar na pintura”, revela Ágatha. Essa etapa, que remete à filosofia de Fayga Ostrower sobre a necessidade humana de compreender e organizar o mundo, é crucial para que, ao se deparar com a tela, a artista saiba exatamente o que quer expressar.
Não é um processo aleatório ou impulsivo; é metódico, deliberado, carregado de intencionalidade. A escrita funciona como um espaço de transição, onde as experiências são digeridas, as percepções clarificadas e os sentimentos nomeados. É nessa escrita que Ágatha encontra a linguagem que a pintura depois amplificará.
Desmistificando a tristeza: a criação de Ágatha Santos emana da sensibilidade
Há um equívoco comum sobre artistas: a ideia de que é preciso estar triste para criar. Ágatha Santos se posiciona contra essa narrativa romântica e, em muitos aspectos, prejudicial.
Para ela, a criação não é um refúgio da dor, mas uma manifestação de um “olhar sensível diante do cotidiano”, uma atenção plena que vai muito além da tristeza. Assim sendo, ela afirma com convicção:
“Muitas vezes as pessoas acham que o artista precisa estar triste pra poder produzir. É uma ideia que eu não concordo. Porque eu penso que [ser artista] não está tão ligado ao estar triste”.

Essa declaração é mais do que uma opinião pessoal; é um manifesto contra a romantização do sofrimento na arte. Ágatha compreende que a curiosidade, a estranheza, a reflexão – e não apenas a tristeza – são os verdadeiros motores da criação.
“Têm obras que eu pinto e que eu estou feliz, eu não estou triste. Na verdade, a grande maioria delas. Mas, perpassa por ter um olhar atento e mais sensível ao cotidiano mesmo, né?”, continua.
De fato, a maioria de suas obras nasce não da dor, mas da alegria, da curiosidade, da capacidade de observar o mundo com profundidade. O que move Ágatha é a sensibilidade de se permitir sentir e transpor isso para as telas.

“As coisas que me atravessam, nem sempre são problemas, nem sempre são coisas que me causam tristeza. Às vezes pode ser um sentimento de curiosidade ou de estranheza, ou uma reflexão, enfim. Esse meu criar não está ligado ao estar triste para produzir. Está ligado ao olhar sensível diante do cotidiano e as reflexões que eu tenho a partir disso”, completa.
Essa é a filosofia que guia sua prática artística: olhar sensível, atenção ao detalhe, capacidade de se deixar afetar pelas pequenas e grandes coisas do mundo.
A metáfora dos pássaros: entre o voar e o confinar, a liberdade e o controle

Entre as séries mais emblemáticas de Ágatha Santos, a dos pássaros se destaca como um espelho de sua própria dualidade e da busca incessante por liberdade que caracteriza a experiência humana, especialmente a experiência feminina. Nela, a artista explora a tensão entre o voar e o confinar, uma metáfora potente para as amarras e os anseios da existência.
O canário
O canário, em particular, assume um papel central, carregado de uma memória afetiva que transcende a tela e toca o coração do observador. Essa não é uma escolha aleatória; é uma escolha profundamente pessoal, enraizada na história de Ágatha e seu pai.

“O canário é uma memória afetiva do meu pai. Ele me chamava de canário por causa da minha voz”, compartilha Ágatha. Nessa simples frase, há um universo de significado. O canário não é apenas um pássaro.
“Cresci no meio religioso e eu atuava no meio da música, cantando. Na verdade, eu ainda atuo. Enfim, e meu pai falava que eu era um passarinho. Tinha muito isso, de que eu era um passarinho, de que eu era o canário. Então, às vezes, ele me ouvia cantar e [dizia]: ‘aí, meu canário'”, continua Ágatha, reconstruindo a cena com ternura. Essa é a voz do pai ecoando através dos anos, através da memória, e finalmente, através da tela.
Quando Ágatha pinta o canário, ela não está apenas representando um pássaro; está materializando uma memória.
“Muitas vezes ele estava na sala de casa e eu levava meu cavalete, minhas tintas para a sala, sentava na frente dele e ele ficava me vendo pintando e vendo o que eu estava pintando, que eu ficava meio que de costas para ele ver.”
A dualidade da existência: o pássaro entre o ninho e o céu
A série dos pássaros de Ágatha não é uma celebração ingênua da liberdade. É uma exploração complexa e nuançada da dualidade humana: o desejo de voar e a segurança do ninho, a necessidade de autonomia e o conforto do confinamento. Os pássaros em suas obras aparecem frequentemente em gaiolas, em momentos de vulnerabilidade, questionando os limites impostos e a capacidade de transcender.


Essa dualidade reflete a própria experiência da artista, especialmente como mulher em um contexto religioso onde a liberdade é frequentemente questionada e controlada. Os pássaros em suas telas não são símbolos de uma liberdade conquistada; são símbolos de uma liberdade em disputa, de uma luta contínua entre o desejo de voar e as forças que tentam manter os pés no chão.
O sagrado e o intelecto
A espiritualidade é um fio condutor na obra de Ágatha, mas é uma espiritualidade que se recusa a ser dogmática, que dialoga com o intelecto e a experiência pessoal, rompendo com preconceitos e limitações.
Para Ágatha, fé e intelecto não são opostos, mas complementares, um caminho para a “regeneração” de uma alma que se recusa a demonizar o conhecimento.
O díptico “Regeneração”
O díptico Regeneração, criado no final de sua graduação, é um manifesto dessa visão revolucionária. Nele, Ágatha expressa a compreensão de que a fé e o intelecto se entrelaçam, formando um todo indivisível.
“A Regeneração é a compreensão de que fé e intelecto não são opostos, mas complementares“, afirma com clareza. A obra simboliza a redescoberta de um sagrado que se manifesta no cotidiano, na busca pelo saber e na capacidade de pensar e sentir em harmonia.
Essa obra é particularmente significativa porque emerge de uma experiência pessoal profunda. Ágatha cresceu em um ambiente religioso onde o conhecimento era frequentemente visto com suspeita, onde o intelecto era considerado uma ameaça à fé.
A Regeneração é sua resposta a essa dicotomia falsa. É um grito de resistência contra a demonização do conhecimento, uma celebração da possibilidade de ser simultaneamente espiritual e intelectual, de honrar a fé enquanto se abraça o pensamento crítico.
“O tormento aqui dentro acaba quando eu entendo que essa aqui é a minha vocação.”
O coração com aura de santidade: o sagrado que transcende o templo
Em suas representações de corações com auras de santidade, Ágatha explora a dimensão do sagrado que transcende os limites do templo físico. Não é um sagrado confinado a edifícios ou rituais; é um sagrado que se manifesta na beleza, na arte e na conexão profunda com o eu e com o mundo.
É um sagrado que busca refrigério em meio ao caos, que oferece compreensão em um universo que muitas vezes tenta nos fragmentar. Essas obras são um convite a reimaginar o que significa ser espiritual em um mundo contemporâneo.
Ágatha não nega a importância da fé; ela a redefine, a expande, a torna mais inclusiva e humana. O coração com aura de santidade é um símbolo de uma espiritualidade que não exclui, que não julga, que abraça a complexidade da experiência humana.
O corpo feminino como ato político
A pintura de Ágatha Santos é, inegavelmente, um ato político e de resistência, especialmente ao abordar o corpo feminino e as vivências da mulher em um contexto que muitas vezes tenta silenciá-las. O corpo nu, que para alguns pode ser chocante ou perturbador, é para Ágatha a alma despida, a vulnerabilidade e a força do feminino em sua forma mais honesta e desarmada.
“Se Acaso Eu For”: a alma despida e a passagem do tempo
Em Se Acaso Eu For, a representação de um corpo feminino nu segurando uma ampulheta é uma poderosa declaração sobre a passagem do tempo e as feridas que ele não cura. A nudez aqui não é provocação; é honestidade.
É a exposição de uma verdade que a sociedade muitas vezes tenta ocultar: que o tempo marca, que deixa cicatrizes, que transforma. O uso do vinho e do azul na obra reforça a representação do sagrado feminino, um convite à reflexão sobre a essência da mulher e sua resiliência.
O vinho evoca o sangue, a vida, a paixão; o azul evoca o céu, a espiritualidade, o infinito. Juntos, eles criam uma aura de santidade ao redor do corpo feminino, uma afirmação de que o feminino é sagrado, que merece ser honrado e celebrado.
A liderança feminina e suas consequências: a pintura como voz
Ágatha discute em sua obra os traumas e as marcas deixadas pela liderança feminina precoce em ambientes religiosos, onde a mulher, embora seja frequentemente a base de sustentação espiritual e emocional, enfrenta imensas dificuldades, preconceitos e exaustão.
Essa é uma experiência que Ágatha conhece intimamente, e é através de sua arte que ela dá voz a essa realidade frequentemente silenciada. Sua arte se torna um espaço de denúncia e cura, onde ela expõe as feridas e a força de sua jornada.


Não é uma arte que oferece soluções fáceis; é uma arte que questiona, que confronta, que convida o observador a refletir sobre as estruturas de poder que oprimem as mulheres, especialmente no contexto religioso. É uma arte que diz: “Eu estava aqui, eu sofri, eu resisti, e meu sofrimento é válido e digno de ser visto”.
Diálogos com Bel Barcellos: o existir feminino na Arte Contemporânea
A artista encontra ressonância e diálogo em outras vozes femininas da arte contemporânea, como a de Bel Barcellos, que também explora o “existir feminino” em sua poética visual. Essa conexão não é casual; é uma afirmação de que há uma comunidade de artistas mulheres que estão questionando, resistindo e reimaginando o que significa ser mulher no mundo contemporâneo.
“E mais uma artista que eu admiro a citar, essa é uma artista contemporânea, acho que a poética dela se encontra com a minha em alguns pontos e acho legal acompanhar outros artistas porque amplia meu repertório é a Bel Barcellos que também trabalha o existir feminino”, compartilha Ágatha.
Essa citação é significativa porque demonstra a importância que Ágatha dá ao diálogo com outras artistas, à construção de uma rede de apoio e inspiração mútua. Ela não vê sua obra isolada; a vê como parte de um movimento maior, uma conversa contínua sobre o que significa ser mulher, artista e criadora no século XXI.
As mulheres que ousaram resistir
Quando Ágatha fala sobre suas influências, ela fala sobre mulheres. Sobre artistas que ousaram criar apesar de tudo. Apesar do sistema. Apesar da história que tentava apagá-las.
Artemisia Gentileschi aparece não pela obra, mas pelo apagamento. O que choca Ágatha é a forma como a história tentou reduzi-la, atrelando-a a figuras masculinas. “Isso me choca muito”, afirma.
Anita Malfatti ocupa um lugar particular nessa lista.
“Embora o que ela produziu se distancia um pouco do que eu faço, eu acho que ela foi uma mulher que ousou resistir em um contexto em que fala-se muito sobre Tarsila do Amaral, mas eu acho que ela foi mais além do que Tarsila. Ela foi mais além no sentido de o que fizeram com ela atravessou, mas ela ousou resistir. Ela resistiu.”
Frida Kahlo é uma descoberta em curso.
“Estou começando a compreender Frida e a admirar cada vez mais a relação que a Frida tinha com a arte, mesmo em meio ao sofrimento dela mesma, como que a arte era o respiro dela e também a forma de resistir. E eu acho que isso está muito ligado à minha percepção de arte.”
Aprisionada pelo próprio corpo, Frida criava. O fazer artístico era o esconderijo dela, era o refúgio dela.
Influência de um dos mestres clássicos
Van Gogh, que atravessa a lista como a única voz masculina — não por acaso. Ágatha o admira porque ele “revolucionou o nosso entendimento sobre cor e sobre pintura” e porque buscou, através da vocação, o sentido de sua própria existência.
São pessoas que transformaram suas vidas difíceis em arte. Pessoas que recusaram desistir. E é nessa recusa — mais do que em qualquer estilo ou técnica — que Ágatha reconhece a si mesma.
Do ateliê de Ágatha Santos às empenas de Belém do Pará
A obra de Ágatha Santos transcende os limites do ateliê e das galerias, alcançando o espaço urbano e dialogando diretamente com a cidade e seus habitantes. Durante o período da pandemia, quando o mundo se viu forçado a repensar seus espaços e suas conexões, suas obras ganharam uma nova dimensão ao serem projetadas em empenas de prédios em Belém do Pará.
Essa iniciativa levou a arte para o espaço público, tornando-a acessível a um público muito mais amplo e transformando a paisagem urbana em uma galeria a céu aberto. As imagens dessas projeções são um testemunho visual do impacto e da capacidade de sua arte de se expandir e dialogar com a comunidade de formas inesperadas.
A pandemia, que isolou tantas pessoas e criou um vazio cultural, se tornou um catalisador para a expansão da arte de Ágatha. Enquanto muitas galerias fechavam suas portas, suas obras invadiam as ruas de Belém, oferecendo um momento de beleza, reflexão e conexão em um período de incerteza e medo.
Não é uma coincidência que essa expansão tenha ocorrido durante a pandemia; é uma afirmação de que a arte é essencial, que ela é um alimento para a alma, especialmente em tempos de crise.
A artista hoje
Ágatha Santos é mais do que uma artista. Natural de Vitória Espírito Santo, esta jovem nascida no ano de 1992, que além de lecionar e atuar no campo de investigação com a prática na pintura (que é sua grande paixão), é uma narradora de histórias, uma tradutora de sentimentos e uma voz potente no cenário da arte contemporânea brasileira. Sua obra é um convite constante a um olhar mais sensível para o cotidiano, para a espiritualidade e para a força do feminino.
A arte-educadora
Como arte-educadora, Ágatha carrega a missão de compartilhar o conhecimento e a paixão pela arte, inspirando novas gerações e democratizando o acesso à cultura. Sua prática pedagógica é uma extensão de sua filosofia artística, onde a arte é vista não como um luxo ou um privilégio, mas como uma ferramenta fundamental de autoconhecimento e transformação. Ela acredita que todos têm o direito de criar, de se expressar, de explorar sua própria sensibilidade através da arte.
Eu tenho meu trabalho como arte educadora, eu gosto de ser professora, mas eu me realizo enquanto pintora. Ali eu sinto a minha alma transcender quando eu pinto. Eu tenho paixão pela pintura. Mas me consome muito ensinar. O magistério me consome demais. Pra mim, descansar é fazer algo que alimenta a minha alma. Então, quando eu pinto, eu tô pensando, eu tô produzindo, mas eu também tô descansando, e acima de tudo, eu tô alimentando a minha alma. E essa é uma forma de resistir também.
Recentemente, num sábado (sua folga), em um ateliê aberto no belíssimo Teatro Glória, em sua cidade, um responsável a viu trabalhando e ficou impressionado. Quando ela mencionou que era professora, ele estranhou — artistas que também ensinam raramente conseguem se dedicar ao fazer artístico desta forma.
Ágatha não hesitou: “É porque eu sou teimosa.”, relembrou aos risos.
Novas fronteiras e expressões
O que move Ágatha Santos não é o reconhecimento. Não é o mercado, não é a galeria, não é o nome em uma parede. O que a move é uma pergunta mais antiga e mais difícil de responder.

“Como que o artista consegue criar rede com pessoas que ele não conhece, pessoas que ele nunca viu e talvez nunca verá, mas essa pessoa, de alguma forma, foi tocada por aquilo que ele produziu.”
É para esse encontro invisível que ela pinta. Para essa rede que ela acorda no sábado, monta o cavalete e mistura as tintas. É para isso que os traumas existem, que a dor ganhou cor, que o pai continua presente em cada pincelada.
“Se isso acontecer, é como se, mesmo os meus traumas, no final valeram a pena. Porque alguém foi tocado por isso de alguma forma.”

