Amauri Rogério: do vinil do DJ Homeless à tela do Arthe Novha – a arte da rua que conquista galerias

Amauri Rogério, AKA DJ Homeless, Arthe Novha
Foto: Divulgação
O artista plástico Arthe Novha, é um manifesto vivo da resiliência e da capacidade de reinvenção que pulsa nas veias da cultura urbana paulistana.

A trajetória de Amauri Rogério de Oliveira, mais conhecido como DJ Homeless e, agora, como o artista plástico Arthe Novha, é um manifesto vivo da resiliência e da capacidade de reinvenção que pulsa nas veias da cultura urbana paulistana.

Sua história, que se desenrola entre as batidas do underground e as pinceladas em telas, é um testemunho de como a arte pode ser um porto seguro e um motor de transformação.

A escola da rua: o início no underground paulistano

Desde muito jovem, Amauri Rogério mergulhou de cabeça na efervescente cena underground de São Paulo. Aos 14 anos, enquanto muitos de sua idade viviam a inocência da adolescência, ele já desbravava as noites da capital, frequentando boates icônicas como a Rose Bom-bom e o Madame Satã. Sua presença, muitas vezes “ilegal” pela pouca idade, era garantida pela lealdade de amigos mais velhos que reconheciam sua paixão genuína pela música.

Foi nas cabines de DJ desses templos da noite que Amauri encontrou sua primeira vocação. Observando atentamente os mestres Marquinhos MS e Magal, ele absorvia cada troca de disco, cada mixagem e a reação da pista de dança.

Essa imersão moldou seu caráter musical, que, embora abastecido em casa pelo samba-rock e a música brasileira, nas ruas se abria para o indie, o rock, o punk, o rap e o reggae. Essa fusão de referências o levou a uma filosofia musical que ele define como “crossover”: a habilidade de transitar por diversos estilos e públicos sem perder a essência.

A superação: o acidente, o renascimento e as mãos amigas da cena

A vida de Amauri, marcada pela intensidade e pela rua, sofreu um revés dramático em 2011. Em uma manhã de setembro, um atropelamento o deixou em estado grave, com lesões múltiplas, dois meses em coma e uma longa recuperação.

“Eu não lembro da batida… Abri o olho e falei: ‘Ué, o que eu estou fazendo no chão? Chão é esse? Que lugar é esse? Por que é que eu estou olhando pro céu?’. Aí eu fui fazer o primeiro movimento pra levantar e vi que… não consegui. Aí eu vi que o negócio era sério”.

Narra o próprio Homeless no documentário “Tá Ligado! Homeless: A Caminhada“.

Esse período de vulnerabilidade extrema revelou a força da comunidade underground. Amigos como Mauro Farina e DJ Cabeça estenderam a mão, oferecendo apoio e um estúdio para sua reabilitação. “Ninguém faz nada sozinho na vida, eu só posso ter gratidão por essas pessoas”, afirma. O documentário, que explora sua recuperação e a filosofia de vida que o nome “Homeless” representa – o mundo como sua casa, sem se prender a “panelas” –, é um testemunho emocionante de sua resiliência e do poder da coletividade.

Assista ao documentário:

Vìdeo: TaLigadoDjHomeless/Facebook

Arthe Novha: a transição para as Artes Visuais e a curadoria

A vivência de rua e a sensibilidade aguçada de Amauri Rogério não se limitaram às pick-ups. Sua paixão pela arte o levou a explorar novas formas de expressão, consolidando-se como artista plástico sob o pseudônimo Arthe Novha.

Sua arte visual é uma extensão de sua filosofia de vida, traduzindo em cores e formas a energia e as narrativas da cidade.

Recentemente, Arthe Novha tem sido uma figura central em importantes eventos culturais de São Paulo. Ele participou da SP Mostra Urbana de Arte – Especial Aniversário de São Paulo, realizada na Casa da Luz, um espaço emblemático do centro histórico.

Além de expor suas próprias obras, Amauri Rogério atuou como curador e organizador do Encontro de Grafite da Pompeia, demonstrando sua visão abrangente e seu compromisso com a cena artística urbana.

Sua presença também marcou a Mostra Cultrua, que estendeu sua temporada na Galeria Prestes Maia. Essa exposição reforça o reconhecimento de seu trabalho e a importância de sua voz no cenário das artes visuais contemporâneas.

A transição de DJ para artista plástico e curador não é uma mudança de rota, mas uma expansão de seu universo criativo, onde a música e a imagem se entrelaçam para contar histórias.

A arte como intervenção: o legado de Homeless/Arthe Novha

Amauri Rogério, seja como DJ Homeless ou Arthe Novha, é um agente cultural que utiliza a arte como forma de intervenção e conexão.

Sua obra visual, assim como suas sets musicais, é um convite à reflexão sobre a cidade, a identidade e a capacidade humana de superar adversidades. Ele representa a voz de uma geração que transforma as experiências da rua em expressões artísticas autênticas e impactantes.

Sua jornada é um lembrete de que a arte não está confinada a galerias ou palcos, mas reside na vivência, na superação e na paixão por criar. Amauri Rogério continua a desbravar novos territórios, com o olhar sempre à frente, mas com os pés firmemente plantados na rica história que o moldou.

Sempre gosto de olhar pra frente. O próximo passo é ir pra gringa”, revela o artista, que segue envolvido em coletivos como o Dubversão, Free Beats e Ocupação Sonora SS.

O mundo como tela, a vida como obra

Na Realidarte, celebramos artistas como Amauri Rogério, que transformam suas vidas em verdadeiras obras de arte. Sua trajetória é um convite a olhar para a cidade com outros olhos, a ouvir as batidas que vêm da rua e a reconhecer a beleza e a força que emergem da resiliência. Arthe Novha é a prova de que a arte é, acima de tudo, uma caminhada contínua. Em outras palavras, é um processo de descoberta e um legado que se constrói a cada batida, a cada traço, a cada superação.

Quer ver mais da história do DJ Homeless, veja a entrevista que ele deu ao podcast “Zona Independente” do canal B2LabTV:

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