Conheça a trajetória da artista visual que transforma a espiritualidade amazônica e a vivência do Tambor de Mina em uma potente expressão da arte contemporânea brasileira.
Há artistas que nascem com o pincel na mão, outros que o encontram em um desvio inesperado da vida. Kariny Sanchez, paulistana de origem e manauara de coração, pertence a este segundo grupo. Sua jornada, que se iniciou nos campos da agronomia, floresceu em um ateliê onde a tela se tornou o solo fértil para uma arte que pulsa com a ancestralidade amazônica e a liberdade criativa.
É uma narrativa de redescoberta, onde a ciência da terra se entrelaça com a sabedoria dos encantados. Tudo isso culminou no projeto “Encantaria” – um convite à imersão em um universo visual que é, ao mesmo tempo, íntimo e universal.
Do Solo à Tela: O Chamado que Redefiniu a Arte de Kariny Sanchez
Em poucas palavras: A transição de Kariny Sanchez da agronomia para as artes visuais foi impulsionada por um “chamado” pessoal e uma profunda conexão com a espiritualidade amazônica, redefinindo sua expressão artística.
A trajetória de Kariny Sanchez é um testemunho da capacidade da arte de transformar e ressignificar percursos. Com uma formação inicial em agronomia, área na qual atuou por quase duas décadas, especialmente com comunidades agroecológicas e agricultura orgânica, ela desenvolveu uma conexão profunda com a terra e seus ciclos. Essa vivência, embora aparentemente distante do universo das artes, plantou as sementes para o que viria a ser sua expressão artística.
“Enquanto agrônoma, eu atuava com comunidades tradicionais e pesquisa de comunidades agroecológicas”.
Relembra Kariny.
Ela destacou como essa experiência a aproximou de saberes e modos de vida que mais tarde se tornariam a essência de sua obra.

O ponto de inflexão, contudo, veio com um “chamado” inadiável. Após um período de luto e profundas reflexões, Kariny buscou respostas na espiritualidade. E sem dúvida as encontrou em uma casa de Tambor de Mina, uma religião amazônica com raízes no Maranhão, Pará e Amazonas. Esse encontro não foi apenas uma experiência religiosa, mas uma revelação artística.
“Aquilo pra mim foi tipo… Oi? Deixa eu entender melhor isso aqui, porque me chamou atenção”
Descreve a artista, evidenciando o impacto transformador dessa imersão.
A partir desse momento, a agronomia, que antes representava uma segurança financeira, deu lugar a uma paixão avassaladora pela arte. Assim, marcando o início de um novo capítulo em sua vida e carreira. Sua formação anterior, no entanto, não foi abandonada, mas sim transmutada. Em outras palavras, influenciou a pesquisa de materiais orgânicos e a sensibilidade para com a natureza presentes em suas criações.
Encantaria: Onde a Lenda se Torna Vivência
Em poucas palavras: O projeto “Encantaria” de Kariny Sanchez eleva os mitos amazônicos de folclore a vivência. Assim sendo, traduz a espiritualidade e as entidades em uma expressão artística que reflete o cotidiano e a identidade cultural da região.

Foi nesse mergulho profundo na cultura amazônica que nasceu o projeto “Encantaria”. Kariny Sanchez percebeu que as histórias de Cobra Grande, Boto Cor-de-Rosa e Iara não eram meras lendas ou fantasias folclóricas. Elas eram de fato, parte intrínseca da vivência e do cotidiano das pessoas da região.
“A ideia de você adentrar o rio, você se molhar, não é uma história que você conta. É uma coisa da vivência, do cotidiano”.
Afirma a artista.
Ela ressalta ainda a profundidade e a realidade dessas narrativas para quem as experimenta.
Essa compreensão transformou sua abordagem artística. O que as pessoas viam como lúdico ou fantástico, para Kariny, revelou-se um sistema de crenças e uma forma de interação com o mundo. Ela percorreu o interior do estado, observando como o respeito por determinadas águas ou a presença de entidades como a Cobra Grande moldavam o comportamento e a percepção local.
O “Encantaria” é, portanto, uma ponte entre o visível e o invisível, onde a artista traduz essa realidade espiritual e cultural em uma linguagem pictórica. Suas obras não apenas representam os encantados, mas os convidam a habitar o espaço da tela, tornando-os palpáveis e presentes para o observador. É uma celebração da memória viva de um povo, que encontra na arte de Kariny um novo território para se manifestar e ser compreendido.
A Técnica Como Ritual: Matéria, Cor e Espiritualidade
A técnica de Kariny Sanchez é um ritual que materializa o sagrado e as narrativas dos encantados. Ela utiliza texturas, cores e pigmentos orgânicos para criar uma experiência visual e tátil profunda.
O processo criativo de Kariny Sanchez é intrinsecamente ligado à sua vivência e pesquisa. Longe de um método rígido, a artista descreve sua criação como nascida de sensações e estados internos, onde a pausa e a contemplação são tão importantes quanto o gesto da pincelada. Essa abordagem se reflete na materialidade de suas obras.

Em seu ateliê, a pesquisa de campo é contínua. Depoimentos orais sobre figuras como a Matinta Pereira e o respeito ao ciclo das chuvas guiam seus esboços iniciais. A transição da prancheta para o cavalete é um ato de alquimia, onde a acrílica se mistura à terra batida, resultando em superfícies táteis que evocam a topografia de um leito de rio ou a casca de uma árvore milenar.
As tonalidades profundas e os relevos, como os que simulam escamas na obra “Cobra Grande”, não são acasos, mas escolhas deliberadas que reluzem à luz, convidando o observador a uma experiência sensorial.
Kariny estuda a teoria das cores e suas relações para evocar emoções, criando sinfonias visuais que dialogam com o círculo cromático e transformam seus quadros em peças centrais capazes de alterar a atmosfera de um ambiente.
Sua técnica, portanto, não é apenas um meio, mas um ritual que materializa a espiritualidade e a narrativa dos encantados, tornando-os presentes e tangíveis para quem se permite adentrar seu universo.
A Arte Como Ponte: Impacto Cultural e Diálogos Contemporâneos
Em poucas palavras: A arte de Kariny Sanchez atua como uma ponte cultural, conectando a ancestralidade amazônica a diálogos contemporâneos, promovendo o ativismo e a valorização de saberes tradicionais através de sua expressão visual.
A obra de Kariny Sanchez transcende a tela, estabelecendo-se como um ponto de diálogo entre a ancestralidade amazônica e as discussões contemporâneas sobre arte, cultura e identidade.



Seus quadros, longe de serem meros elementos decorativos, funcionam como âncoras emocionais em ambientes, criando atmosferas e convidando à reflexão. Em projetos de arquitetura contemporânea, por exemplo, suas pinturas são utilizadas para equilibrar a materialidade do espaço com a subjetividade das narrativas que carregam, transformando o quadro de objeto em presença.
Essa capacidade de diálogo se estende a outras mídias, como sua participação no videoclipe “Meu Norte“, do projeto audiovisual “Efeito Borboleta”. Kariny levou seu “Encantaria” para as telas, projetando suas paisagens internas no universo cinematográfico e unindo a estética mística ao ritmo da música.



Esse intercâmbio demonstra como a pintura e a música podem convergir, ampliando a mensagem de preservação cultural e reforçando a ideia de que a arte é, em sua essência, um ato de ativismo.
Seu ateliê em Manaus, inclusive, já serviu como espaço para arrecadar donativos para comunidades ribeirinhas, evidenciando o compromisso da artista com o impacto social de seu trabalho.





Kariny sonha em levar seu “Encantaria” para praças públicas, museus e bienais internacionais, sempre com o respeito às comunidades que inspiram cada tela. Seu desejo é que a arte seja uma ponte entre o interior do Brasil e o interior de cada espectador, reforçando a ancestralidade como força vital.
Sobre Kariny Sanchez

- Atuação: Artista Visual
- Origem: Paulistana, radicada em Manaus há mais de 15 anos.
- Linha Estética: Arte contemporânea com influências da arte vernacular, espiritualidade e expressionismo simbólico.
- Técnica Principal: Tinta acrílica, com uso de texturas e pigmentos orgânicos sobre tela.
- Temas Recorrentes: Espiritualidade amazônica, Encantaria, Tambor de Mina, identidade feminina, relação entre homem e natureza, saberes tradicionais.