Tiana Lago

Tiana Lago espalha ETs tropicais pela arte urbana de São Paulo

Quem cruza o centro de São Paulo pode ser surpreendido por olhos fluorescentes que parecem não pertencer a este mundo. São os ETs de Tiana Lago, multiartista baiana que faz da capital paulista sua galeria a céu aberto. A artista atende a videochamada direto do seu ateliê no Bixiga.

Tiana Lago se tornou, aos poucos, a embaixadora desses seres coloridos que ocupam muros Brasil afora.

Tiana Lago
Foto: tianalago/Instagram

A história de Tiana começa muito antes da lata de spray. Vem de uma casa barulhenta no interior da Bahia, atravessa a rigidez de uma agência de publicidade em Salvador, passa pelo isolamento da pandemia e desemboca em São Paulo, onde ela resiste com tinta, agulha e a insistência em viver da própria arte.

Mas quem é essa mulher que pinta marcianos Brasil afora e faz a capital paulistana ser o epicentro contatos imediatos? Tiana Lago é a cronista visual de um mundo possível.

Infância em Castro Alves: quintal selvagem e liberdade criativa

Castro Alves, interior da Bahia, 30 mil habitantes. A casa dos pais de Tiana era “tipo Jumanji”, como ela define com nostalgia. Certamente, a comparação não é exagerada: animais selvagens circulavam pelo quintal grande, materiais de arte se espalhavam por todos os cantos, e uma liberdade criativa contagiante atraía todos os amigos da cidade pequena para aquele universo particular.

Meus pais sempre incentivaram, meu pai é um pouco artista também.

Por isso, desde cedo, ela teve acesso a “muito material de arte, de madeira, de tinta, muita coisa assim eu sempre tive disponível”. Dessa forma, o ambiente familiar não apenas tolerava a expressão artística: a estimulava ativamente.

Essa atmosfera formou a base para uma imaginação sem cercas. Mas a verdadeira fagulha veio das viagens à Chapada Diamantina, região da família paterna. Foi lá que os alienígenas começaram a nascer — não nas paredes, mas na cabeça da menina que ficava esperando aparições no quintal escuro.

Com o tempo, esse fascínio infantil se transformou em personagens que hoje ocupam muros, corpos e telas

Chapada Diamantina: alienígenas que nunca chegaram

A Chapada, com suas lendas, cristais e histórias de aparições, foi território de encantamento. Para a menina de Castro Alves, a televisão confirmava aquilo que os mais velhos já comentavam. A cada visita à casa dos parentes em Mucugê, a expectativa voltava: quem sabe os extraterrestres finalmente dariam as caras?

“Passava no Fantástico, que os ETs estavam aparecendo nas chapadas, por causa dos cristais e não sei o quê”, relembra. Assim, a menina desenvolveu uma crença genuína na possibilidade de encontros imediatos. Por isso, “eu ia, criança, pra conhecer lá e ficava olhando pro escuro, pro quintal, assim, esperando eles aparecerem pra mim”.

Eles nunca vieram.

No entanto, essas vigílias noturnas criaram uma expectativa mágica que marcaria para sempre sua percepção do mundo. “Se apareceu e eles apagaram a minha memória, eu não sei”, brinca hoje sobre possíveis encontros.

Mas certamente, aquela fascinação infantil pela possibilidade de vida extraterrestre se transformaria e, décadas depois, transformaram-se em figuras coloridas que hoje são conhecidos como os Tropicaliens — ETs que ocupam São Paulo como uma espécie de memória coletiva da infância de Tiana (e sua marca registrada artística).

Enquanto muitos grafiteiros escolhem traços agressivos, ela insiste em alienígenas quase afetuosos, como se estivessem mais interessados em conviver do que em invadir. “Quem passa, para. Quem olha, sorri”, diz. E nesse gesto, ela entende que não faz apenas grafite: cria memória urbana compartilhada.

De Salvador ao design gráfico: a agência como prisão criativa

Aos 15 anos, Tiana deixou Castro Alves rumo a Salvador para estudar. “Na minha cidade, o ensino nunca foi muito bom”, explica sobre a decisão familiar de buscar melhores oportunidades educacionais na capital baiana. Contudo, a escolha do curso superior geraria tensões familiares reveladoras.

Mas o computador não satisfazia completamente sua necessidade de criar. “A agência começou a ficar muito chata e eu comecei a querer outras cores”, resume com precisão poética a saturação do ambiente corporativo. Por isso, simultaneamente ao trabalho formal, começou a explorar outras possibilidades expressivas.

Esse descompasso abriu espaço para o retorno daquilo que sempre a acompanhou: a vontade de desenhar e pintar sem limites.

“Meus pais não queriam, eles apoiaram a arte e tal, mas não queriam que eu trabalhasse ou me formasse” na área, conta sobre a resistência inicial ao design gráfico. Entretanto, ela insistiu numa “arte mais moderna, digamos assim, para trabalhar em escritório, computador”. Dessa forma, encontrou um meio-termo entre vocação artística e expectativas familiares de estabilidade profissional.

Durante oito anos, trabalhou em agência de publicidade como diretora de arte. “Eu formei em design gráfico e trabalhei com direção de arte“, resume. Inicialmente, a experiência parecia promissora.

A agência era meio dividida de atendimento, que quase nunca eu ia, que eu odiava, continuo odiando, atendimento, texto de redação, e eu fazia a arte.

Primeiros muros: do digital às paredes

Antes de abandonar de vez o mundo corporativo, Tiana começou a se arriscar nas ruas. Não havia projeto, nem assinatura, apenas urgência. Com uma lata de spray na mão, pintava quartos de amigas, paredes de pizzarias, espaços pequenos que surgiam como oportunidade.

Ela começou pequeno, pintando “o quarto das minhas amigas” e postando resultados no Instagram. A estratégia de divulgação funcionou.

Começou a aparecer os pedidos pelo Instagram, a galera me conhecia, já sabia que eu trabalhava com agência, com direção de arte, então foi um pouco mais fácil.

Ademais, algumas pessoas começaram a contratá-la para projetos paralelos.

Alguns clientes da agência, eu comecei a fazer a parede deles também. Tem uns que eu faço até hoje, uma rede de pizzarias. Quando eles reformam ou abrem outra unidade, eles me chamam para eu fazer.

Dessa forma, estabeleceu parcerias duradouras que garantem renda recorrente até hoje. Por isso, a transição para a independência não foi abrupta, mas gradual, construída sobre relacionamentos profissionais sólidos que transcenderam o ambiente da agência.

Enquanto a publicidade sufocava, o grafite libertava. Na rua, descobriu que não precisava de briefing nem de aprovação do cliente. Bastava espaço. E isso era o que mais faltava em Salvador.

O Instagram funcionou como vitrine: cada foto postada atraía novos convites. Mas era pouco para quem sonhava mais.

Por isso, em abril de 2019, seu trabalho já havia ganhado reconhecimento suficiente para aparecer no programa Conexão Bahia, da TV Bahia. Na matéria, ela aparecia grafitando pelo bairro de Brotas, explicando como ela e outros artistas pediam autorização aos donos dos “muros brancos” antes de pintar.

Sobre seus alienígenas, declarou: “Eu acredito muito na existência deles e acho que eles são mais bondosos do que nós, seres humanos.”

Video: Reprodução/TV Globo

Assista ao programa Conexão Bahia com Tiana Lago completo, clicando nessa frase destacada.

Dessa forma, estabeleceu parcerias duradouras e reconhecimento midiático que garantiam sustentabilidade ao trabalho artístico independente.

Consequentemente, a transição para a vida exclusivamente artística se tornou viável antes mesmo da pandemia alterar o cenário profissional brasileiro.

A tatuagem antes e durante a pandemia

Aos poucos, o spray ganhou companhia de uma agulha. Antes mesmo da pandemia, Tiana já se arriscava no traço sobre a pele. Era como se ela levasse os personagens para viajar junto com cada pessoa. A transição fazia sentido: se antes eram muros a céu aberto, agora seriam corpos em movimento.

Eu comecei a tatuar antes da pandemia. Fui pegando gosto. A rua é muito grande, mas a pele também é um território imenso.

Quando o isolamento chegou, o estúdio improvisado no apartamento precisou ser fechado. Tiana voltou por um tempo para o interior.

Na pandemia eu fiquei no interior, desenhando, inventando coisas. Fiz uns trabalhos, uns quadros, mas tava difícil. Tinha dias que eu só desenhava pra não pirar.

A pausa forçada não apagou a chama. Ao contrário, fez a tatuagem se consolidar como continuidade natural da rua. Quando a cidade reabriu, ela já sabia que não voltaria para a agência — a pele, como o muro, era seu novo espaço de liberdade.

“Depois da pandemia apareceu a oportunidade de vir” para São Paulo, momento em que ela já estava “totalmente independente, na tatuagem, sem agência, nada.”

No estúdio de tatuagem, desenvolveu metodologia própria que prioriza qualidade sobre quantidade. “Não existe pressa. O desenho é conversa, é corpo a corpo”, explica sobre processo que transforma cada sessão em colaboração criativa entre artista e cliente.

Entre telas e muros: a versatilidade da artista plástica

Entre seus trabalhos favoritos como artista plástica, destaca projetos que transcendem o comercial. “Em trabalho profissional, eu curti muito um trabalho que eu fiz numa clínica veterinária”, revelou em 2022. Além das intervenções urbanas, Tiana desenvolve um trabalho consistente em pintura de cavalete, aceitando encomendas comerciais regulares.

Durante nossa entrevista, ela mostrou uma tela em andamento:

Uma plantação de mandioca para um cliente lá da Bahia. Sempre pinto uns quadros aqui. Estou vendo. Não sei se eu me considero tão talentosa como artista plástica, porque não parece ser minha praia, mas as pessoas gostam do meu trabalho e sempre me pedem para pintar uma tela ou outra.

Tiana Lago deixa sua assinatura também nessa modalidade artística.

Em seu ateliê improvisado no Bixiga, telas aguardam finalização ao lado de materiais de tatuagem e sprays de grafite. “Tem muitos quadros aqui”, mostrou durante a nossa videochamada, revelando produção diversificada que inclui tanto trabalhos autorais quanto encomendas comerciais.

Essa versatilidade entre rua, pele e tela consolida Tiana como multiartista completa, capaz de transitar entre diferentes suportes sem perder identidade visual.

Mudança para São Paulo: independência e incerteza

A chegada a São Paulo representou marco definitivo na independência artística. “Eu tenho muitos parentes aqui em São Paulo. Eu sempre me senti segura em São Paulo e sempre quis morar aqui”, explica sobre fatores que facilitaram a mudança.

Entretanto, estabelecer-se na metrópole exigiu nomadismo inicial.

Morei na Augusta, morei na Rego Freitas. Aqui eu tô bem nômade mesmo, né? Morei na Rego Freitas, agora eu tô morando no Bixiga.

Cada mudança representava busca por equilíbrio entre custo de vida e proximidade das oportunidades de trabalho.

“E, mano, cada mês é uma surpresa, assim. Não sei como eu vou pagar as contas, tá ligado?”, confessa sem romantizar a precariedade que atravessa a vida de artistas independentes. Por isso, desenvolveu estratégias múltiplas de sobrevivência. “É por isso que eu faço um milhão de coisas ao mesmo tempo.”

Além disso, a instabilidade financeira é constante. “Tem mês que tem um monte de tatuagem. Tem mês que não tem nada”, explica sobre as flutuações imprevisíveis da demanda. Por conta disso, a diversificação se tornou necessidade: entre tatuagens, grafites e telas por encomenda, ela equilibra arte comercial e expressão pessoal.

Arte urbana e resistência feminina no grafite paulistano

Em São Paulo, Tiana descobriu que ser mulher no grafite traz desafios específicos. “Na cena do grafite, tipo, 90% é homem. Isso é meio estranho, assim, dá um baque”, revelou em uma entrevista em 2022.

Tiana descobriu que ser mulher no grafite traz desafios específicos. “Você consegue fazer sozinha?“, perguntam a ela constantemente. Não fazem a mesma indagação aos seus colegas homens, é claro. Essa abordagem constante revela dúvida machista que atravessa orçamentos e reconhecimento público. Contudo, ela desenvolveu estratégias para enfrentar essas situações com pragmatismo e firmeza.

“Eu converso, eu consigo ter um vocabulário de boa, uma conversa de boa”, explica. Essa característica se estende a muitos cenários e muitos amigos de Tiana a consideram muito cara de pau. Assim, desde conseguir permissão para abduzir um muro com seus alien a até mesmo lidar com abordagens policiais, a multiartista consegue fazer as pessoas perceberem que estão lidando com uma profissional da arte. Ademais, ser MEI e formada em arte ajuda na legitimação profissional.

Eu sou MEI, que é aquele microempreendedor individual. Então, eu sou uma artista profissional e o meu trabalho é fazer arte na rua também.

Entretanto, ela reconhece que as disparidades persistem. “A diferença de cachê deve ser bem maior”, admite. Mas, para além disso, o reconhecimento público frequentemente ignora a autoria feminina e esse é um incômodo que atravessa Tiana Lago.

A galera da rua passa e sempre dá parabéns, tá ligado? Não pra mim, que tô trabalhando, mas para o mano que tá do meu lado — às vezes ajudando a carregar (ou mesmo parado me observando). Eu penso: ué, eu tou invisível aqui? Eu tô ficando louca? Sou a dona do desenho!

Entre suas inspirações, destaca artistas que moldaram sua abordagem colorida. “Eu assisti uma palestra do Kobra, que teve lá na Bahia”, conta sobre influências nacionais. Além disso, cita “Éder Muniz, que é o Calango” da Bahia, e “Bolieiro” de BH, “de levar temas alegres e coloridos para os alienígenas.”

Finalmente, Tiana Lago conseguiu um reconhecimento institucional significativo. Ela celebra sobre projeto aprovado pelo Museu da Arte de Rua, na Augusta:

Eu fiz, tá na Augusta ainda. É o Sem Freio. Eles abriram o edital e eu me inscrevi e passei. Foi o único edital de São Paulo, desses grandes, que eu me inscrevi e consegui passar.

Centro de São Paulo: território dos alienígenas coloridos

Morar no centro mudou completamente sua relação com São Paulo. Enquanto “parentes nascidos e criados em São Paulo têm medo de andar no centro”, ela encontrou segurança e identificação. “Me sinto muito mais segura do que andar no centro de Salvador”, compara, contrariando estereótipos sobre violência urbana paulistana.

Consequentemente, o centro virou seu território artístico principal. “Eu pinto muito pelo centro”, conta sobre estratégia de ocupação espacial. Cada saída se transforma em oportunidade criativa: “os lugares que eu vou, eu procuro fazer uma arte, sempre levo umas tintas pra marcar a passagem além do território.”

Dessa forma, seus ETs funcionam como marcos urbanos que conectam artista e cidade. “É legal também você , por exemplo, gostar do meu trampo, da mensagem que eu passo e poder me ver no centro porque é bem, tipo, você vira parte do lugar”, explica sobre proximidade única que a arte de rua permite com o público.

Entretanto, a efemeridade faz parte do jogo. Já aconteceu de Tiana passar num muro que você tinha deixado sua marca e ela não estar mais lá várias vezes. Um caso paradigmático foi o mural da Brigadeiro: “no outro dia, tava metade de baixo pra cima apagada. Aí, tipo, no outro dia, não ficou nem 24 horas.”

Mesmo assim, Tiana voltou no Natal para tentar completar o trabalho. “Aí veio dois velhão… De novo você aqui! A gente acabou de apagar o negócio!”, relataram os responsáveis pela limpeza. Tiana disse que argumentou:

É Natal, vai ficar com sua família, por que você quer arrumar coisa comigo? Deixa eu terminar minha arte aqui pra ficar uns dias.

Futuro: uma empena e uma exposição individual

“Tudo tem seu tempo”, filosofa Tiana sobre próximos passos profissionais. Ainda não se sente pronta para certas conquistas. “Eu quero fazer uma exposição sozinha minha, mas eu ainda não tenho material, não tenho bagagem para isso”, admite com honestidade.

Tiana Lago
Foto: Denise Adams/Dasartes

Entretanto, tem objetivos claros. “Eu quero pintar um prédio, uma empena, mas eu ainda também não fiz isso, mas tudo está na frente”, planeja com ambição crescente. Por isso, cada trabalho atual é pensado como preparação para desafios maiores.

Eu quero ficar famosa. Eu sempre desenhei, sempre pintei. Eu mereço parar de passar perrengue, contando moeda pra pagar o mês.

Ela não disfarça a ambição, no entanto a frase vem acompanhada de uma gargalhada divertida.

Aos que começam na arte urbana, especialmente mulheres, ela deixa um conselho direto:

Tem que gostar muito, ter uma cabeça boa, ter fé, acreditar no seu bagulho. Se você não acreditar no seu trabalho, ninguém mais vai acreditar. Se aperfeiçoar, estudar, treinar incansavelmente. Todo dia eu desenho, todo dia eu pinto. Corre em busca do seu sonho. Tipo, se você ama a arte, se você quer viver disso, corra atrás, não pode fazer corpo mole, é atividade o tempo todo, não pode parar, é só movimento e coragem.

ETs como memória coletiva urbana

Na pressa de São Paulo, muros grafitados competem por atenção numa paisagem visual saturada. Mas quando o olhar encontra um daqueles alienígenas coloridos de Tiana Lago, a cidade para por um segundo. Não é apenas grafite: é declaração de existência de uma multiartista que transformou fascínio infantil da Chapada Diamantina em resistência visual urbana.

Entre spray e agulha, ela constrói pontes entre mundos: interior e metrópole, infância e maturidade, sonho e sobrevivência. Seus ETs são cronistas visuais de um mundo possível, onde arte urbana pode ser simultaneamente expressão pessoal, transformação social e estratégia econômica de sobrevivência.

“Eu nasci pra trabalhar com arte, eu não sei fazer outra coisa”, finaliza Tiana com convicção absoluta. Seus alienígenas continuam espalhados pelos muros do centro paulistano, lembrando que arte pode ser tanto grito de resistência quanto afago visual numa metrópole que nunca para de se transformar.

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