Curadoria de Bianca Foratori reúne 37 artistas no Ateliê Casarão Ipiranga numa abertura que durou o dia inteiro — e deixou rastro nas paredes.
Quando cheguei ao Ateliê Casarão, na Rua dos Patriotas, eram 18h30 de um sábado. A abertura encerrava às 19h. Do lado de fora, nenhuma fila. Do lado de dentro, Paulo Du Sanctus — co-fundador do espaço — recebia os últimos visitantes com a mesma disposição de quem abre a porta às duas da tarde.
Mas as redes sociais contavam outra história: o evento tinha sido lotado o dia inteiro. Artistas, amigos, público. A festa havia acontecido. Eu cheguei para o silêncio que ela deixa.
Foi um privilégio acidental.
Me apresentei como jornalista. Paulo me perguntou se havia obras de artistas conhecidas ali. Confirmei: Rafaela Braga, Sarah Santiago, Ágatha Santos. Ele me deu espaço para circular. Com o relógio correndo e as paredes cheias, fui.
O espaço como testemunha
O Ateliê Casarão é uma casa. Não um cubo branco, não uma galeria de shopping. Uma casa de bairro no Ipiranga, com as marcas de quem já morou, e agora deixa arte morar. A exposição “De Musa ao Protagonismo” ocupa esse espaço em camadas: entrada, salão principal, corredor, cômodo. Cada ambiente com sua densidade própria.
A curadoria de Bianca Foratori organiza as 37 artistas em dois eixos que se interpenetram (o eu em relação a si mesma e o eu em relação ao outro). Mas a divisão não se anuncia nas paredes. Ela emerge do percurso. Você entende a estrutura caminhando, não lendo.
Na entrada: obras, formas de dizer corpo
Na parede logo a esquerda, uma tela grande de Bruna Diniz fecha exige a grande “Árvore da Vida”. Duas figuras femininas a flanqueiam: uma à esquerda, alcançando um galho onde os frutos têm olhos; outra à direita, caminhando em direção ao tronco. É um Jardim do Éden onde ninguém foi expulso e as mulheres não estão em dívida com nada.

De mesmo modo, chama a atenção o quadro de Helena Sofia qu apresenta “Meninas de Hanover” (quatro crianças com o rosto pintado, um calendário de setembro ao fundo). A alegria está lá, mas alguma coisa no olhar delas não deixa o visitante quieto.

Seguindo o caminho, o tom da exposição ganha contornos evidentes. Três obras em diálogo direto: uma fotografia de barriga grávida com uma corrente de miçangas plateadas (de Jessica Catharine, “Um Mundo Todo”), uma cena fotográfica de Rafaela Braga com três gerações indígenas, e uma pintura de Bárbara Rigamonte onde duas figuras completamente azuis (uma em cadeira de rodas, outra de pé alimentando a primeira com uma colher) condensam o cuidado.

O corpo aqui não é objeto. É sujeito que carrega história.
A fotografia da Rafaela tem título: “Herança Viva”. Cabe tudo nesse quadro (e em duas palavras): a avó, a filha, o neto, a madeira gasta, o cachorro ao fundo. A cena não pede explicação. Pede silêncio.

No corredor: onde a tensão muda de frequência
O corredor guarda as obras mais densas da mostra.

Um tríptico pintado sobre madeira apresenta figuras suspensas por cordas vermelhas em posições de shibari. Na lateral, texto em japonês: 縛られ慣れた サラリーマン — algo como “um assalariado acostumado a ser amarrado”. A inversão de poder está ali, exposta, sem legenda em português.

Como o idioma é um dos meus mais novos interesses, ao pesquisar descobri que o termo “Shachiku” traduz-se literalmente como “escravo da empresa”. De fato, a obra faz boa alusão a funcionários que se dedicam excessivamente ao trabalho. Quem não lê japonês sente mesmo assim.
Na parede seguinte, Ligia Moraes (São Paulo/SP) apresenta “Nut” — uma figura feminina azul coberta de estrelas douradas, com frases inscritas ao redor: “Deusa dos céus”, “Leve estrelas por nós”, “Morre em paz que nós resolvemos as coisas por aqui”.

A frase final é deboche e manifesto ao mesmo tempo. A deusa que resolve depois da morte é uma matriarca que o Brasil conhece de cor.
Presença que não pede licença
“Sobre aqueles olhos”, de Jade Pamplona (São Paulo/SP), coloca um par de olhos grandes acima de um tabuleiro de xadrez. Duas peças se encaram, ligadas por um fio vermelho. Entre elas, líquido azul escorre. O xadrez como metáfora já foi usado demais. O que Pamplona faz é diferente: o olhar que observa o jogo é maior que o jogo.

Sabrina Ruhoff (São Paulo/SP) apresenta dois trabalhos que conversam sem se explicar. “Contenção”: pinceladas botânicas em verde e lilás, a forma que quase aparece mas não aparece.

Por conseguinte, “Fissura”: camadas espessas de branco e cinza, textura que parece pressão acumulada. Os títulos dizem o que os olhos já sentiram: há algo represado num, e no outro, o momento depois.
Assista:
No cômodo: o íntimo como território
O último ambiente que visitei foi tão fascinante quanto.


Ágatha Santos (Vitória/ES) expõe “Vênus se cria, faz-se existir (autorretrato)”: uma figura negra de cabelos crespos diante de um cavalete, pintando. A tela que ela pinta está visível — outra figura emerge do processo. A artista que se vê artista, e deixa o espectador ver isso acontecendo.

Há séculos de pintura ocidental que colocaram a mulher negra como tema, nunca como sujeito que nomeia a própria criação. Ágatha inverte isso sem alarde, num autorretrato que cabe numa tela pequena e transborda.
O olhar que testemunha
Fafá Borges (Jundiaí/SP) assina um retrato a carvão de Laudelina de Campos Melo — sindicalista, fundadora da primeira associação de empregadas domésticas do Brasil, em 1936. O título é direto: “Laudelina de Campos Melo – direito das domésticas”.

Lana Lina (Rio de Janeiro/RJ) traz “Efeitos dos Leopardos” (2025) — figura negra em traje de carnaval dentro de uma moldura de miçangas em estampa de onça.
O corpo como território
Sarah Santiago (São Paulo/SP) ocupa a parede maior com “Horto do encanto” — uma mulher de cabelo negro ondulado caminha entre flores, com roupas cor-de-rosa e água sob os pés.

O movimento é do quadro inteiro: o cabelo, as pétalas, o chão que cede. Não é quietude; é deslocamento com graça.
Isabela Cunha (São Paulo/SP) expõe dois trabalhos de close-up de pele — “Corpo” e “Epitélio”. Ambos com ponto vermelho. Ambos vendidos. O corpo feminino como paisagem, não como espetáculo, encontrou comprador no primeiro dia.

Bruna Diniz (Guarulhos/SP), que assina também a obra da entrada, apresenta aqui um rosto feminino negro sobre fundo dourado, com galhos e sementes entranhados no cabelo.

Sem dúvida, mais obras impressionaram neste cômodo.
Recolhimento e expansão
Cláudia Sens (São Paulo/SP) ocupa uma parede com dois trabalhos da mesma série — formas que explodem em amarelo, verde e azul sem centro fixo.


Bárbara Rigamonte, que assina “Fora do Ar” na entrada, volta no cômodo com “Entre Respiros” (a mesma paleta de azul intenso, agora numa figura encolhida sobre lençol laranja).

Se na entrada havia cuidado, aqui há recolhimento. São dois estados do mesmo corpo.
Veja:
Havia mais. O tempo não deixou ver tudo. Uma exposição com 37 artistas não se resolve em trinta minutos nem em um texto. O que está descrito aqui é o que coube numa tarde corrida. O restante está nas paredes até 5 de junho*.
O que a curadoria não precisa explicar
A estrutura de Bianca Foratori não se impõe sobre as obras. Ela emerge delas. Ao circular pelos três ambientes, o argumento curatorial aparece não como tese declarada, mas como percurso sentido.
Há algo que costura tudo: a mulher como agente, não como tema. Da fotografia documental ao autorretrato, da técnica mista ao carvão sobre papel; os suportes variam, o ponto de vista não.
Com toda a certeza, “De Musa ao Protagonismo” não é um título retórico. É uma descrição de trajetória.
Serviço
- Exposição: De Musa ao Protagonismo
- Curadoria: Bianca Foratori
- Local: Ateliê Casarão — Rua dos Patriotas, 548, Ipiranga, São Paulo
- Visitação: até a 5 de junho*
(Paulo du Sanctus confirmou que haverá uma prorrogação) - Horário: De quarta a sábado, das 14h às 19h
- Artistas selecionadas: Ágatha Santos, Ana Beatriz, Bárbara Rigamonti, Beca Chang, Bruna Diniz, Carol Loução, Cláudia Sens, Delfina Reis, Egos, Fátima Borges Silva, Hanna Gomes, Helena Klipp, Heloisa Dile, Isabela Carvalho, Jade Serpa Barbosa, Jessica Catharine, Lana Lina, Larissa Bichuete, Laura Martins, Laura Martínez, Letícia Suzuki, Ligia Moraes, Lucília Abrahão, Lúcia Rosa, Márcia Gadioli, Mari Ana, Maria Silvia Almeida, Marta Moura, Nart Ateliê, Nina Miyamoto, Patrícia Ribeiro, Rafaela Braga, Sabrina Ruhoff, Samia Sousa, Sarah Santiago, Thaís Pinheiro e Vyvy Vanazzi.
- Instagram: @ateliecasaraoipiranga
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