SP-Arte 2026: um diálogo íntimo com o pulso da Arte Contemporânea

Artista Plástica e Visual Sarah Santiago durante SP-Arte; obra Fleur de la Passion Maracujá de Beatriz Milhazes
Sarah Santiago na SP-Arte 2026. — Foto: Jefferson Gonçalves
Sarah Santiago reflete sobre a feira que redefine tendências e Conexões Artísticas

Minha segunda SP-Arte, e a sensação é de um reencontro artístico de vida, complexidade e em constante mutação. Presenciar a SP-Arte pelo segundo ano consecutivo me traz uma reflexão constante sobre a circulação das obras. 

Pela minha perspectiva, a grande oportunidade em um evento dessa magnitude é o acesso. A oportunidade de ver, de perto, peças que em breve deixarão o olhar público para integrar coleções privadas. Caminhar pelos corredores do Pavilhão da Bienal é sempre um mergulho profundo, onde é possível expor linguagens e temporalidades modernas e contemporâneas, brasileiras e internacionais.

Este ano, mais uma vez, a feira se revelou um retrato multifacetado das dinâmicas do mercado, das tendências estéticas e, acima de tudo, dos encontros que só a arte pode proporcionar.

O olhar curatorial: entre o Moderno e o Contemporâneo

É fascinante observar como a SP-Arte orquestra a coexistência de diferentes transitoriedades. A cada ano chego com olhares e conhecimentos diferentes, evidentemente tenho novas perspectivas estudando história da arte e atuando na conservação preventiva. 

A Queda do Anjo (1974), óleo sobre madeira de Síron Franco. — Foto: Jefferson Gonçalves

Há um encantamento técnico e histórico ao reencontrar os modernistas. No primeiro andar, a aposta em nomes consagrados como Volpi, Di Cavalcanti, Heitor dos Prazeres, Tomie Ohtake e Tarsila do Amaral, é uma constante e, como artista plástica, é inspirador! 

Vi obras que, em minha memória, pareciam ecoar edições anteriores, um lembrete da solidez desses pilares. A presença de um Burle Marx, em sua posição habitual, quase um marco, reforça essa reverência à história. Mas este ano, o que realmente capturou minha taenção foi a força e a presença de Amadeo Luciano Lorenzato. 

Depois de um mergulho recente em sua obra, percebi a efervescência em torno de seus trabalhos onde explora as simplicidades da vida, um mundo entre a natureza das colinas e as casinhas coloridas que compõem a paisagem, o desenho das nuvens e das pipas no céu, um conjunto que transparece leveza cotidiana e do convívio familiar.

Obras de Amadeo Lorenzato. — Foto: Sarah Santiago

A obra de Lorenzato esteve presente em diversas galerias exibindo suas telas e a Galeria Frente, inclusive, lançando um livro dedicado a ele. Vendas expressivas, como a de uma obra por R$ 800 mil na Gomide&Co, atestam seu lugar de destaque no mercado atual. É um movimento orgânico, quase um reconhecimento tardio que se consolida com vigor.

Ao lado de Lorenzato, a presença de Candido Portinari também foi notável. Ver suas obras na SP-Arte, como as expostas na DAN Galeria e pela Galeria Frente, é sempre um lembrete da grandiosidade da arte brasileira e de como esses mestres continuam a dialogar com as novas gerações. É um privilégio ter a oportunidade de estar tão próxima de trabalhos que marcaram a história da nossa arte.

Contemporaneidade

Superfície e profundidade — as duas obras de Bruno Vilela em diálogo: O Tigre da Lua Cheia (2026) e Chapultepec – opus 02. — Foto: Jefferson Gonçalves.

No segundo andar, o panorama se transforma. Ali, a efervescência do contemporâneo se manifesta em trabalhos que desafiam convenções, exploram materiais não convencionais e provocam reflexões. 

É nesse espaço que a arte se permite ser mais crítica, mais experimental, mais visceral. É onde o artista se expressa em sua plenitude, muitas vezes com uma linguagem que transcende o puramente estético para tocar em questões sociais e políticas, ainda que este ano, em minha percepção, as críticas políticas tenham sido mais sutis.

Espaço de encontros

Para mim, a SP-Arte é, acima de tudo, um espaço de encontros. Encontros com obras que transcendem o que se vê nos museus, pois muitas delas estão destinadas a coleções particulares, tornando a feira uma oportunidade única de contemplação.

A Fleur de la Passion Maracujá, de Beatriz Milhazes, uma acrílica sobre tela vibrante de 1995-1996, exposta no estande da Almeida & Dale, foi um desses momentos. A energia de suas cores e formas, a complexidade de seus arabescos e florais, me transportaram para um universo de dinamismo óptico, um verdadeiro deleite para os olhos.

A disputa silenciosa: arte para contemplar ou colecionar?

A SP-Arte é, inegavelmente, um palco de disputas. Não apenas pela atenção dos colecionadores, mas pela própria definição do que é arte e para quem ela se destina. De um lado, vejo o visitante que busca uma peça decorativa, um quadro que harmonize com a paleta de cores da sala, sem um interesse aprofundado na história ou no contexto da obra. 

Contudo, um quadro que possivelmente estará na parede de uma sala, carrega consigo camadas históricas que vão muito além da estética. Do outro, o colecionador ávido por um nome de peso, uma aquisição que valorize seu acervo, seja de artistas brasileiros ou internacionais. 

Essa gangorra entre o decorativo e o simbólico é palpável, e é um dos aspectos mais intrigantes da feira. A negociação, o olhar atento, a percepção de quem está ali para comprar e quem está apenas para observar – tudo isso compõe um arranjo silencioso que revela muito sobre o valor atribuído à arte em diferentes esferas.

Quadro Terra, de Tarsila do Amaral, Avaliado em cerca de 20 milhões de reais na SP Arte 2026
“Terra” (1943), de Tarsila do Amaral, um termômetro da alta do surrealismo no mercado de arte brasileiro. — Foto: Jefferson Gonçalves

Confesso que, para mim, que não vou à SP-Arte com a intenção de comprar, a experiência é de pura observação e aprendizado. Não me incomoda o olhar que talvez me julgue como uma mera espectadora; pelo contrário, é nesse lugar de não-consumidora que consigo absorver as nuances do mercado, as temáticas emergentes e as tendências que se desenham. 

A Tarsila do Amaral, exposta na Flexa Galeria, avaliafa em 20 milhões de reais, por exemplo, foi um desses encontros efêmeros e inesquecíveis, um reflexo dos altos tickets que movimentaram a feira.

Tendências e o pulso do mercado: o que a SP-Arte 2026 revela

A feira é um termômetro cultural, um espaço onde as tendências são não apenas exibidas, mas, de certa forma, consolidadas. Assim como o MASP define temáticas anuais, a SP-Arte, e outras grandes exposições, sinalizam o que está por vir. Este ano, percebi uma forte presença da tapeçaria, um retorno a essa linguagem que se reinventa e ganha novos contornos. 

Foto: Jefferson Gonçalves

Artistas concretos e obras com iluminação também se destacaram, indicando uma diversificação de materiais e abordagens. É um ciclo, um movimento constante de reinvenção.

O mercado, em sua busca incessante por novidades, lança tendências de forma quase cíclica, de modo que o que é “falado no momento” se torna o objeto de desejo. 

Sarah Santiago, durante a SP-Arte 2026
O eixo gira, as cores se sobrepõem, o espectro se abre: Felipe Pantone faz da transformação cromática uma escultura em movimento. — Foto: Jefferson Gonçalves

É um movimento que, embora pareça orgânico, carrega uma intencionalidade clara: criar demanda, gerar conversas, e, consequentemente, vendas. A valorização de artistas latinos, por exemplo, pode ser vista sob essa ótica, um reflexo de um olhar mais amplo e, por vezes, estratégico do mercado. 

A SP-Arte 2026, com suas vendas recordes, mas com a concentração em grandes tickets e nomes históricos, evidencia essa dinâmica de um mercado em recomposição cautelosa, onde a força local e a identidade brasileira se destacam em um cenário global mais seletivo.

SP-Arte 2026: a essência da experiência

Ao final de cada SP-Arte, a sensação que fica é a de ter testemunhado um panorama riquíssimo do que a arte pode ser e representar. É um convite à reflexão sobre o papel do artista, do colecionador, da galeria e do público nesse ecossistema. 

É um lembrete de que a arte não é estática; ela respira, se transforma e nos convida a fazer o mesmo. E é essa a beleza de estar imersa nesse universo, de poder compartilhar essas impressões e, quem sabe, inspirar outros a olharem para a arte com um olhar mais sensível e curioso.

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