Tarsila do Amaral: o mercado e o dilema da autenticidade

Ilustração que Alípio Neto diz ser de Tarsila do Amaral - Reprodução/Reprodução/Alípio Neto
Foto: Alípio Neto/Reprodução

Tarsila do Amaral é, indiscutivelmente, o termômetro do mercado de arte brasileiro. Recentemente, durante a cobertura da SP-Arte 2026 pela Realidarte, testemunhamos o pulso vibrante do setor com a exibição de obras que desafiam as cifras da imaginação. Agora, o nome da pintora volta ao centro das atenções não por um recorde. Há um racha familiar e técnico que coloca em xeque a autenticação de 16 desenhos inéditos.

A Tarsila S.A., empresa que gere os direitos da artista, certificou as obras. No entanto, uma ala da família e especialistas renomados contestam a decisão. Assim, expondo as vísceras de um mercado onde o selo de autenticidade vale tanto quanto a própria tinta.

O conjunto de ilustrações, que retrata o litoral brasileiro da década de 1920, pertencia ao pesquisador Alípio Neto. Esse catálogo foi alvo de uma longa batalha judicial de fato. Enquanto peritos contratados pela Tarsila S.A. atestam a veracidade, o grupo ligado ao catálogo raisonné (a “bíblia” da obra tarsiliana) mantém o ceticismo, criando um limbo que afeta diretamente o valor de mercado dessas peças.

O peso do catálogo raisonné e a validação técnica

Na arte contemporânea e no modernismo, a inclusão de uma obra no catálogo raisonné é o que separa um tesouro de um papel sem valor. No caso de Tarsila do Amaral, a recusa de pesquisadoras como Aracy Amaral e Regina Teixeira de Barros em validar os desenhos de Alípio Neto gerou um impasse. E, é claro, esse entreveiro foi parar nos tribunais.

A defesa da autenticidade sustenta que as obras foram feitas para ilustrar conferências do poeta Guilherme de Almeida. Entretando, a falta de consenso entre os especialistas da Base 7 impediu sua entrada no registro oficial.

Ilustração atribuída à artista Tarsila do Amaral - Reprodução/Reprodução
Ilustração atribuída à artista Tarsila do Amaral. — Foto: Reprodução/Reprodução

A situação se torna, sem dúvida, ainda mais complexa com a entrada de novos peritos. Eles utilizam exames de física e análises grafotécnicas para confrontar a tradição da comissão original. Para o mercado, essa fragmentação da autoridade é perigosa, pois a dúvida é o maior inimigo da valorização de um ativo cultural.

Tarsila do Amaral: entre a utopia e o cifrão

A valorização de Tarsila do Amaral atingiu patamares globais. Telas como “A Lua”, por exemplo, sendo adquiridas pelo MoMA por valores que ultrapassam os R$ 75 milhões. Esse cenário de hipervalorização explica por que a disputa por 16 desenhos inéditos é tão acirrada. Se autenticados, o conjunto pode valer cifras milionárias; sem o selo, permanecem como curiosidades históricas de posse duvidosa.

Quadro Terra, de Tarsila do Amaral, Avaliado em cerca de 20 milhões de reais na SP Arte 2026
“Terra” (1943), de Tarsila do Amaral — avaliada em cerca de R$ 20 milhões na Galeria Flexa, um termômetro da alta do surrealismo no mercado de arte brasileiro. — Foto: Jefferson Gonçalves

Como observamos na SP-Arte 2026, o interesse por Tarsila é inesgotável, mas a segurança jurídica e técnica é o que sustenta esse ecossistema. O racha entre os herdeiros sobre quem tem o poder de dizer o que é ou não uma “Tarsila legítima” reflete uma crise de governança que pode impactar futuros leilões e exposições internacionais.

O legado em disputa e a cultura visual

Para além das cifras, o que está em jogo é a integridade da cultura visual brasileira. Tarsila do Amaral construiu uma linguagem que define o Brasil para o mundo, e cada novo desenho atribuído a ela é uma peça do quebra-cabeça do nosso modernismo. A resistência de parte da família em aceitar as novas perícias sugere que a proteção do legado histórico, muitas vezes, colide com a urgência de novas descobertas que o mercado anseia por absorver.

Enquanto o imbróglio não se resolve, as obras permanecem em um território de sombra, aguardando o veredito final que as colocará definitivamente na história da arte ou no esquecimento dos arquivos privados.

Com informações da Folha de S.Paulo


Descubra mais sobre Realidarte

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

You May Also Like
Clique e leia

Ateliê Casarão: a arte feminina em destaque na exposição “De Musa ao Protagonismo”

Com curadoria de Bianca Foratori, a mostra no Ateliê Casarão Ipiranga reúne 37 artistas, incluindo nomes como Ágatha…
Clique e leia
Artista e ativista indígena Daiara Tukano assina mural em homenagem a Aílton Krenak no Vale do Anhangabaú a convite da Virada Sustentável.
Clique e leia

Ailton Krenak: o rosto da resistência indígena no coração de São Paulo

Mural monumental de Daiara Tukano, inaugurado no Vale do Anhangabaú, transforma o Edifício Guanabara em um manifesto visual…
Clique e leia
Pintura histórica de Pedro Américo intitulada Tiradentes Esquartejado, exibindo partes do corpo de Tiradentes sobre um cadafalso de madeira com um crucifixo ao lado da cabeça.
Clique e leia

Tiradentes: a estética do choque na obra de Pedro Américo

Entenda como o quadro “Tiradentes Esquartejado”, concluído em 1893, desafiou a iconografia do Dia de Tiradentes e se…
Clique e leia
Logotipo da Amazônia com formas orgânicas inspiradas nas curvas dos rios amazônicos, em paleta de cores vibrantes, representando a diversidade cultural e natural da Amazônia Legal Brasileira.
Clique e leia

Amazônia: a arte que nasceu do próprio rio

A nova identidade visual da Amazônia Legal Brasileira é um manifesto de design territorial, cocriado com artistas locais,…
Clique e leia