Casa Domschke: a utopia de Artigas recebe a distopia de Marco Castillo

Vista de exposição com obras de Marco Castillo, em cartaz na Casa Domschke, em São Paulo.
Vista de exposição com obras de Marco Castillo. — Foto Tatiana Mito/Divulgação

A Casa Domschke, assinada por Vilanova Artigas, torna-se agora um território de confronto entre duas utopias interrompidas. Sob a organização da galeria Nara Roesler, o artista cubano Marco Castillo apresenta a exposição “A Casa do Decorador”, uma investigação visceral sobre a falência dos sonhos ideológicos. Ao ocupar as rampas arejadas e o concreto aparente da residência em São Paulo, Castillo utiliza o mobiliário e o design de sua infância em Cuba para iluminar as sombras de um regime que prometeu libertação, mas entregou silenciamento.

A escolha da Casa Domschke para este capítulo brasileiro da mostra não é casual. Segundo Castillo, a arquitetura de Artigas, que buscava a transformação social através do espaço, subverte a opressão retratada em suas obras, criando um diálogo potente entre o sonho brasileiro e a distopia cubana.

O design como registro de guerra e silêncio

A narrativa de Marco Castillo na Casa Domschke parte do mobiliário produzido logo após a queda da ditadura de Fulgencio Batista em Cuba. Peças que referenciam o trabalho de designers como Gonzalo Córdoba são reinterpretadas como esculturas que carregam o peso da Guerra Fria.

Uma das obras, que recebe o visitante, assemelha-se a um satélite — uma alusão aos equipamentos que interceptavam sinais e vigiavam a vida privada, transformando o ambiente familiar em um campo de batalha ideológico.

O artista explora a noção de mensagens escondidas, escavando contracapas de livros para inscrever palavras como “ditadura” e “paradoxo” em baixo-relevo. Para os pesquisadores da mostra, Castillo evidencia como regimes autoritários sufocam gerações brilhantes, utilizando uma linguagem cifrada para resgatar vozes que caíram no esquecimento.

A arquitetura de Artigas como contra-narrativa

Diferente de outros espaços que já abrigaram a exposição pelo mundo, a Casa Domschke oferece uma fluidez que desafia a opressão. As rampas de Artigas permitem que todos os andares sejam vistos e ouvidos simultaneamente, uma transparência que contrasta com as “paredes que barravam sussurros” na Cuba de Castillo.

Obra de Marco Castillo, em exposição na Casa Domschke, em São Paulo.
Foto: Tatiana Mito/Divulgação

A mostra também apresenta trabalhos que antecedem a tridimensionalidade do artista, com telas de tons vibrantes que recuperam a arte pop cubana — outrora rotulada como “deturpação burguesa”. Ao final, a exposição na Casa Domschke deixa uma pergunta sobre o presente: em um mundo de sobreposição de ideologias, como ainda é possível debater sem transformar crenças políticas em identidades intransigentes?

Serviço — Exposição: A Casa do Decorador

  • Artista: Marco Antonio Castillo
  • Local: Casa Domschke (Rua Comendador Elias Zarzur, 2.030, São Paulo)
  • Visitação: Terça a sexta, das 11h às 17h; Sábado, das 11h às 15h
  • Período: Até 28 de abril de 2026
  • Entrada: Gratuita

Sobre a Casa Domschke

  • Arquiteto: Vilanova Artigas
  • Estilo: Escola Paulista (Brutalismo)
  • Importância: Marco da arquitetura moderna brasileira voltada ao convívio social

Com informações da Folha de S.Paulo


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