Ivald Granato: a ancestralidade e o espetáculo das máscaras

Obra de Ivald Granato, por Ana Pigosso
Foto: Ana Pigosso/Divulgação

Ivald Granato sempre fez da própria existência um ato performático. Assim, conhecido pela irreverência das camisas coloridas e pela presença que dominava qualquer ambiente, o artista (morto em 2016) ganha agora uma perspectiva inédita através da exposição “Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?”.

Em cartaz na galeria Dan, em São Paulo, a mostra reúne 32 telas produzidas no final da década de 1990 que mergulham no simbolismo das máscaras e que, sem dúvida, revelam um criador em busca de suas raízes africanas e indígenas.

Diferente da explosão cromática que marcou sua trajetória, este conjunto de obras apresenta tons mais sombrios e introspectivos. Segundo a curadoria de Maria Alice Milliet, os trabalhos sugerem um momento de balanço pessoal, onde o artista utilizou a máscara. A saber, a escolha do símbolo máximo do teatro e do sagrado se deu para investigar a própria ancestralidade e os processos do subconsciente.

A máscara como extensão do performer

A ligação de Ivald Granato com as máscaras transcende a estética; ela é uma extensão de sua natureza como performer. Precursor da performance no Brasil, Granato utilizava o corpo e a encenação para questionar normas, como no emblemático happening “Mitos Vadios” de 1978.

A curadoria observa que o interesse do artista por esses objetos decorre de sua capacidade de permitir a incorporação de outros seres e características. Em outras palavras, algo que ele praticava naturalmente ao tomar a cena em qualquer evento social ou artístico.

A exposição evidencia que essa pesquisa não foi superficial. Granato mantinha em seu ateliê referências bibliográficas sobre arte africana, e muitas de suas telas reproduzem contornos oblongos e olhos semifechados típicos dessas máscaras.

Ao posicionar artefatos africanos reais ao lado das pinturas, a mostra estabelece um diálogo, confirmando a seriedade da investigação do artista sobre sua herança materna.

O espírito anárquico e a contracultura

Representante legítimo da contracultura, Ivald Granato manteve em sua pintura o mesmo espírito crítico e anárquico que guiava suas ações públicas. Suas telas de máscaras preservam o gesto rápido e impulsivo, características de uma produção que não buscava a perfeição acadêmica, mas a urgência da expressão. Para Milliet, só para ilustrar, essa postura rebelde é o que mantém a obra de Granato viva e conectada ao debate contemporâneo sobre identidade e representação.

Ao revisitar essas obras inéditas, o público recebe o convite para descobrir um Granato que, embora estivesse sempre sob os holofotes, sabia silenciar para ouvir as vozes de seus antepassados. A exposição é, em última análise, um convite para entender que, por trás de cada máscara, havia um artista profundamente comprometido com a verdade de sua própria história.

Serviço Exposição: Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?

  • Artista: Ivald Granato
  • Curadoria: Maria Alice Milliet
  • Local: Dan Galeria (Rua Estados Unidos, 1638, São Paulo)
  • Visitação: Segunda a sexta, das 10h às 19h; Sábado, das 10h às 13h
  • Período: Até 27 de junho de 2026
  • Entrada: Gratuita

Com informações da Folha de S.Paulo


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