O que Mestre Didi deixou: uma visita à exposição no Itaú Cultural

A exposição “Mestre Didi: Invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira” ocupa três andares do Itaú Cultural até 5 de julho. É uma das mostras mais densas que o espaço já recebeu (e uma das mais necessárias).

Quando visitei a Exposição do Mestre Didi no Itaú Cultural, era noite do dia 23 de maio, chuva torrencial em São Paulo, virada cultural esquentando os motores e, do jeito que sai de casa para curtir a explosão artística que se misturava no caldeirão do centro da cidade, decidi visitar a exposição na Avenida Paulista, 149 – Bela Vista, São Paulo.

Entrei, mas não só. Estive na companhia de quem entende de arte bem mais do que eu, mas ser um livro aberto me traz algumas vantagens subjetivas. Foi assim, de maneira leiga mas com extrema curiosidade que entrei. E antes de qualquer porta se abrir de verdade, já estava dentro de uma obra.

Antes de entrar, você já está dentro

Pairando na entrada, uma anfitriã quase espiritual. Está no ar (suspensa entre os andares), feita de fios azuis e búzios. Você olha de baixo pra cima e entende que a exposição começa antes de você entrar nela de verdade.

É uma escultura comissionada da artista baiana Nádia Taquary, a mesma que levou Ìrókò: a árvore cósmica à última Bienal de São Paulo. Uma cabeça adornada suspensa no teto, de onde desce uma cascata de fios azul-violeta e verde-água que se abre no chão como raízes ou água em queda livre.

Foto: Jefferson Gonçalves

A escolha não é acidental. Taquary define o tom da exposição inteira com uma única obra: você vai descer. O sagrado está embaixo.

Primeiro andar: o Modernismo que não precisou da Europa

O primeiro andar reúne o eixo Modernismos Afro-Brasileiros: artistas da Salvador das décadas de 1960 e 1970 que criaram linguagens modernas sem pedir licença ao cânone europeu. Não é uma história que a arte ocidental contou para si mesma. É a história que a arte afro-brasileira contou para o mundo, enquanto ninguém prestava atenção.

Rubem Valentim está ali com quatro telas de 1961 (triângulos, meias-luas, colunas em fundo azul-noite e ocre). Geometria que não é abstração gratuita: cada forma é signo, cada cor tem dono no panteão iorubá.

A obra Emblema, de 1968, está também no 7º andar do Itaú Cultural, em Brasil das Múltiplas Faces. Mas aqui, no contexto da exposição de Didi, ela ganha outra respiração.

Mais do sagrado no ambiente

Seguindo a parede, Abdias do Nascimento coloca o sagrado em campo aberto: duas figuras negras sob um céu estrelado, rodeadas de girassol, pássaro, borboleta, peixe.

Foto: Jefferson Gonçalves

A Teogonia afro-brasileira n. 2 (1972, coleção Ipeafro) e A dupla personalidade de Oxumarê n. 2 (1971, acervo MASP) chegam com cores primárias e linhas que não tremem. É uma cosmovisão inteira em cores.

Foto: Jefferson Gonçalves

Entre eles, um grande painel-cosmograma divide o espaço em nove células, cada uma com um signo de orixá (o opaxorô no céu estrelado, o raio, a borboleta com olhos, o peixe). Você fica ali, em pé, tentando entender até perceber que cada forma é uma porta.

José Adário/Zé Diabo (ferramentas em ferro dos orixás). — Foto: Jefferson Gonçalves

No mesmo andar, sem muito alarde, estão também Agnaldo dos Santos (escultor baiano que traduziu o universo afro-brasileiro em madeira com uma intensidade rara) e Ayrson Heráclito, cujo trabalho sobre os rituais do candomblé e a diáspora africana está em permanente tensão com a história do corpo negro. A obra de Heráclito está também no 7º andar do Itaú Cultural.

O primeiro andar estabelece a conversa histórica. Mas o coração da exposição está embaixo.

A obra de Mestre Didi no primeiro Andar: o sagrado como escultura

No plateau terracota do primeiro andar estão os cetros e as formas sagradas de Mestre Didi. De acordo com uma breve pesquisa durante minha visita, eu observava as peças mais reconhecíveis da exposição.

Nervura de folha de dendezeiro, couro pintado, búzios, contas, ráfia. Formas que derivam dos objetos litúrgicos: o Xaxará, ligado a Obaluaê, e o Ibiri, de Nanã Buruquê.

A maior escultura do conjunto, com dois grandes arcos laterais, cintas de búzios e um miolo de losango vermelho no topo, não representa o sagrado. É, sob meu ponto de vista, o sagrado organizado em forma.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos nasceu em Salvador em 1917. Artista plástico, escritor e sacerdote (Bopê Oiá da Casa de Iyá desde os 18 anos). Publicou o primeiro vocabulário iorubá-português em 1950.

Viajou pelo Benin e Nigéria entre 1967 e 1972 a serviço da Unesco. Fundou o Ilê Asipá. Príncipe de Ketu. Mas aqui, neste andar, ele é apenas Mestre Didi — e suas esculturas falam sozinhas.

Onde a exposição respira fundo

Foto: Jefferson Gonçalves

Do meu ponto de vista, o subsolo 1 é o andar mais generoso da exposição. O plateau de esculturas de Mestre Didi continua aqui (mais obras, mais perto, mais silêncio ao redor).

Na parede ao fundo, Emanoel Araújo aparece com um relevo escultórico em madeira policromada de grande escala (planos diagonais em laranja, vermelho-tijolo e marrom que parecem chamas ou asas abertas).

A cor do relevo ecoa exatamente a cor dos pedestais de Didi: chego a conclusão que não é uma escolha curatorial por acidente. É conversa, diálogo.

Jorge dos Anjos ocupa uma parede inteira com quatro grandes desenhos a tinta (1984); preto absoluto sobre branco, figuras míticas, triângulos, serpentes, raios. O traço é urgente. A coleção é do próprio artista. Você sente a pressão da caneta no papel, mesmo que o papel esteja a metros de distância.

Foto: Jefferson Gonçalves

E então há Arlete Soares. Fotógrafa que documentou o candomblé a partir de dentro (como pesquisadora e como pertencente). Duas séries em diálogo direto: Brasil em preto e branco (Salvador, anos 1980, iaôs girando, egunguns de costas) e África em cores (Benin, 1986 — voduns, figuras de palha em movimento, cortejos). A montagem faz o mesmo gesto que Didi fez nas viagens da Unesco: costura Brasil e África sem hierarquia, sem nostalgia.

Goya Lopes, artista têxtil baiana com obra comissionada para esta exposição, também está presente neste andar. Lopes é referência no diálogo entre moda, arte e visualidade afro-brasileira.

O que o terreiro deixou vivo

O subsolo 2 é o único andar inteiramente voltado para o presente. Cinco artistas do Ilê Asipá, o terreiro fundado por Didi em Salvador, com obras comissionadas especialmente para esta mostra. O nome do eixo diz tudo: Legado e olórin tí a bí ní ilé Àsipà (os artistas que nasceram na casa de Asipá).

André Otun Laran apresenta estandarte bordado que representa a figura negra em silhueta sobre fundo vermelho, passo de guerreiro, búzios na cabeça, sinos na cintura. Movimento absoluto. Você vê a figura e já sente o som.

Foto: Jefferson Gonçalves

Maxodi (Jurandy Sobrinho) traz dois estandartes de 2026: Olu Ayê – Senhor da Terra e Ayê II. Rafias que caem como barba ou como chuva, cabaças amarradas, búzios. Uma figura que é força, não forma.

O grande manto cerimonial instalado em pedestal próprio — ouro e bordô, raios em apliqué, espelhos embutidos, figura de cruz alada no centro — é a peça têxtil mais majestosa do andar. Veste um ancestral, não um corpo humano.

Edivaldo Bolagi assina a instalação mais desconcertante da exposição inteira: um círculo de espelho no chão coberto de folhas verdes picadas. Sobre ele, uma figura de cabaças empilhadas com ráfia.

E uma máquina de escrever antiga no centro de tudo. O som do terreiro e o som da escrita no mesmo círculo. Mestre Didi foi escritor. A máquina não é objeto decorativo — é presença biográfica.

O acervo documental

No mesmo andar, a pesquisa do assistente curatorial Tiago Sant’Ana ocupa um painel inteiro de documentos e fotografias do acervo do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo. Didi com o tio Alfredo. Didi e Juana Elbein dos Santos com a família Asipá em Ketu, Benin, 1967 (a viagem da Unesco). Fotos da construção do terreiro Ilê Asipá, tijolo por tijolo.

Foto: Jefferson Gonçalves

E numa vitrine, a carteira profissional de Mestre Didi. Uma autorização de empréstimo de obras assinada com a cúpula do nome: Deoscóredes Maximiliano dos Santos. E uma proposta para escultura pública — Opá Esin, em bronze, 8,50m, para a Praça do Rio Vermelho.

Foto: Jefferson Gonçalves

Enquanto observo a carteira profissional e olho em volta, é possível entender que a vida de um homem não cabe em um documento, apenas. Muitas vezes, a vida que cabe em um documento é muito maior que a vida que cabe em um museu.

O documentário produzido pela equipe do Itaú Cultural no final de 2025, em Salvador, completa o andar (com entrevistas de Inaicyra Falcão — filha de Didi e educadora —, curadores e membros do Ilê Asipá).

No final, você sobe. Passa de novo pela escultura de Nádia Taquary. Os fios azuis ainda estão no ar. E você entende que a exposição não terminou quando você saiu.

Exposição — Mestre Didi: invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira

  • Local: Itaú Cultural, Avenida Paulista, 149, próximo ao metrô Brigadeiro
  • Datas: Até 5 de julho de 2026
  • Horário: Terças a sábados: 11h–20h | Domingos e feriados: 11h–19h
  • Entrada: Gratuita

Artistas: Abdias do Nascimento, Agnaldo dos Santos, André Otun Laran, Antonio Oloxedê, Arlete Soares, Aurelino dos Santos, Ayrson Heráclito, Edivaldo Bolagi, Emanoel Araújo, Goya Lopes, Jorge dos Anjos, José Adário (Zé Diabo), Kleyson Otun Elebogi, Maxodi (Jurandy Sobrinho), Mestre Didi, Nádia Taquary, Rubem Valentim


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