Na música “Espaço”, Vitor Ramil canta sobre um ambiente inóspito. Ele descreve um “quarto de não dormir” e uma “sala de não estar”. Essa imagem do desconforto encontra eco visual nas telas de Thix. A artista plástica brasileira apresenta sua primeira individual na Casa Triângulo, em São Paulo.
Destaques da matéria:
- Transição de gênero na arte contemporânea é o tema central da exposição.
- Estética barroca e claro-escuro retratam a jornada da artista em São Paulo.
- Realidarte analisa a profundidade da obra de Thix na galeria Casa Triângulo.
A mostra “Quarto de Não Dormir, Sala de Não Estar” fica em cartaz até julho de 2026. O trabalho é um mergulho profundo na beleza e na dureza de sua transição. A obra explora identidade e memória no contexto da arte contemporânea.
Quem é Thix?
Thix nasceu em Porto Alegre e atuou no design gráfico antes das artes visuais. Ela se consolidou como uma voz potente na pintura contemporânea atual. Sua formação ocorreu na Florence Academy of Art e na Barcelona Academy of Art. Esse percurso acadêmico foi fundamental para sua maestria técnica.
Nessas escolas, a artista absorveu a rigorosa linguagem dos mestres clássicos. Ela domina técnicas que hoje servem para subverter o cânone tradicional. O impacto dessas instituições europeias é visível em sua execução precisa. Thix utiliza a tradição para inserir corpos queer em espaços antes invisíveis.

Ela recontextualiza a história da arte com uma perspectiva atual. A artista vive no Rio de Janeiro há cerca de duas décadas. Ela iniciou sua transição de gênero após os 40 anos de idade. Thix descreve o processo como sair de uma prisão para entrar em outra .
O processo criativo
O processo criativo de Thix é uma jornada íntima e dramática. Sua técnica é profundamente calcada na pintura acadêmica e no estilo barroco. O uso meticuloso das tintas a óleo é a base de sua expressão. A técnica do claro-escuro é inspirada em Caravaggio e Artemisia Gentileschi.
Esses elementos não são apenas escolhas estéticas, mas ferramentas narrativas fortes. A artista inicia seus retratos com a técnica da grisaille. Essa “camada morta” monocromática recebe depois veladuras translúcidas e coloridas.
O método confere profundidade e volume incomuns às suas obras. Ele simboliza a dualidade entre a sedução e a dor da transição. A luz e a sombra expressam sua complexidade emocional. Elas revelam a tensão entre o visível e o oculto na identidade.
Linguagem e temas da obra

As obras de Thix convidam o espectador para uma contemplação demorada. A narrativa pessoal se entrelaça com questões de pertencimento e identidade. Em “Os Sonhos em que Estou Morrendo São os Mais Belos que Já Tive”, ela usa rosa. A artista veste sapatos vermelhos e é cercada por cinco cães Doberman.
Os cães representam a vigilância social e o confinamento feminino. O rosa e o vermelho eram cores proibidas em sua infância. Agora, elas são reivindicadas como símbolos de uma feminilidade potente. Em “Réquiem para um Homem”, Thix referencia a obra de Caravaggio.
Ela segura a própria cabeça decepada de quando se identificava como homem. A obra é um símbolo de luto e superação do passado. A artista também explora o tom de revanche e o deboche. Em uma tela, ela segura um veado morto em meio a incêndios. Thix ressignifica termos pejorativos e afirma a resistência queer no mercado .
Arte e espaço
A exposição transcende a mera exibição de pinturas na Casa Triângulo. Thix expande sua linguagem para instalações e práticas escultóricas diversas. Ela cria um diálogo potente com o ambiente físico da galeria. A metáfora de Vitor Ramil se materializa em móveis rearranjados.
Essas peças constroem uma atmosfera onírica e bastante inquietante. As instalações são extensões físicas da psique da própria artista. O público experimenta o desconforto e a beleza de sua jornada pessoal. Vestidos rosa suspensos e uma crinolina de ferro evocam gaiolas e prisões.

Uma espiral de DNA feita com unhas postiças desafia a biologia. A obra de Thix estabelece uma atmosfera emocional no ambiente. Seus quadros dialogam com a arquitetura contemporânea e o impacto cultural. Ela questiona quem merece ser eternizado nos acervos das instituições .
“A arte é o lugar onde eu organizo o que não cabe em palavras.”
Essa frase da artista resume a essência de sua produção atual. Ela busca a permanência e a ressignificação sem espetáculos vazios. “Ser mulher tem sido uma construção diária”, conclui a pintora gaúcha. Sua arte funciona como um espelho íntimo da vida e do tempo.
Sobre Thix
- Nacionalidade: Brasileira
- Técnica: Pintura a óleo, técnica mista e instalações
- Movimento/linha estética: Arte contemporânea de influência barroca
- Temas recorrentes: Transição de gênero, memória e resistência queer
Com informações de Casa Triângulo
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