Thix na Casa Triângulo: a beleza no barroco e a dureza de se tornar mulher na arte

A arte de transição de gênero na arte contemporânea de Thix
Foto: Filipe Berndt/Divulgação

Na música “Espaço”, Vitor Ramil canta sobre um ambiente inóspito. Ele descreve um “quarto de não dormir” e uma “sala de não estar”. Essa imagem do desconforto encontra eco visual nas telas de Thix. A artista plástica brasileira apresenta sua primeira individual na Casa Triângulo, em São Paulo.

Destaques da matéria:

A mostra “Quarto de Não Dormir, Sala de Não Estar” fica em cartaz até julho de 2026. O trabalho é um mergulho profundo na beleza e na dureza de sua transição. A obra explora identidade e memória no contexto da arte contemporânea.

Quem é Thix?

Thix nasceu em Porto Alegre e atuou no design gráfico antes das artes visuais. Ela se consolidou como uma voz potente na pintura contemporânea atual. Sua formação ocorreu na Florence Academy of Art e na Barcelona Academy of Art. Esse percurso acadêmico foi fundamental para sua maestria técnica.

Nessas escolas, a artista absorveu a rigorosa linguagem dos mestres clássicos. Ela domina técnicas que hoje servem para subverter o cânone tradicional. O impacto dessas instituições europeias é visível em sua execução precisa. Thix utiliza a tradição para inserir corpos queer em espaços antes invisíveis.

A artista Thix.
A artista Thix. — Foto: Rafael Dorjan/Divulgação

Ela recontextualiza a história da arte com uma perspectiva atual. A artista vive no Rio de Janeiro há cerca de duas décadas. Ela iniciou sua transição de gênero após os 40 anos de idade. Thix descreve o processo como sair de uma prisão para entrar em outra .

O processo criativo

O processo criativo de Thix é uma jornada íntima e dramática. Sua técnica é profundamente calcada na pintura acadêmica e no estilo barroco. O uso meticuloso das tintas a óleo é a base de sua expressão. A técnica do claro-escuro é inspirada em Caravaggio e Artemisia Gentileschi.

Esses elementos não são apenas escolhas estéticas, mas ferramentas narrativas fortes. A artista inicia seus retratos com a técnica da grisaille. Essa “camada morta” monocromática recebe depois veladuras translúcidas e coloridas.

O método confere profundidade e volume incomuns às suas obras. Ele simboliza a dualidade entre a sedução e a dor da transição. A luz e a sombra expressam sua complexidade emocional. Elas revelam a tensão entre o visível e o oculto na identidade.

Linguagem e temas da obra

'Réquiem para um Homem' (2026), pintura de Thix.
‘Réquiem para um Homem’ (2026), pintura de Thix. — Foto: Filipe Berndt/Divulgação

As obras de Thix convidam o espectador para uma contemplação demorada. A narrativa pessoal se entrelaça com questões de pertencimento e identidade. Em “Os Sonhos em que Estou Morrendo São os Mais Belos que Já Tive”, ela usa rosa. A artista veste sapatos vermelhos e é cercada por cinco cães Doberman.

Os cães representam a vigilância social e o confinamento feminino. O rosa e o vermelho eram cores proibidas em sua infância. Agora, elas são reivindicadas como símbolos de uma feminilidade potente. Em “Réquiem para um Homem”, Thix referencia a obra de Caravaggio.

Ela segura a própria cabeça decepada de quando se identificava como homem. A obra é um símbolo de luto e superação do passado. A artista também explora o tom de revanche e o deboche. Em uma tela, ela segura um veado morto em meio a incêndios. Thix ressignifica termos pejorativos e afirma a resistência queer no mercado .

Arte e espaço

A exposição transcende a mera exibição de pinturas na Casa Triângulo. Thix expande sua linguagem para instalações e práticas escultóricas diversas. Ela cria um diálogo potente com o ambiente físico da galeria. A metáfora de Vitor Ramil se materializa em móveis rearranjados.

Essas peças constroem uma atmosfera onírica e bastante inquietante. As instalações são extensões físicas da psique da própria artista. O público experimenta o desconforto e a beleza de sua jornada pessoal. Vestidos rosa suspensos e uma crinolina de ferro evocam gaiolas e prisões.

'Pequenos Incêndios em Terras Onde Tentaram nos Arrancar Tudo' (2026), pintura de Thix.
‘Pequenos Incêndios em Terras Onde Tentaram nos Arrancar Tudo’ (2026), pintura de Thix. — Foto: Filipe Berndt/Divulgação

Uma espiral de DNA feita com unhas postiças desafia a biologia. A obra de Thix estabelece uma atmosfera emocional no ambiente. Seus quadros dialogam com a arquitetura contemporânea e o impacto cultural. Ela questiona quem merece ser eternizado nos acervos das instituições .

“A arte é o lugar onde eu organizo o que não cabe em palavras.”

Essa frase da artista resume a essência de sua produção atual. Ela busca a permanência e a ressignificação sem espetáculos vazios. “Ser mulher tem sido uma construção diária”, conclui a pintora gaúcha. Sua arte funciona como um espelho íntimo da vida e do tempo.

Sobre Thix

  • Nacionalidade: Brasileira
  • Técnica: Pintura a óleo, técnica mista e instalações
  • Movimento/linha estética: Arte contemporânea de influência barroca
  • Temas recorrentes: Transição de gênero, memória e resistência queer

Com informações de Casa Triângulo


Descubra mais sobre Realidarte

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

You May Also Like
Fachada de parede de tijolos com cartaz da exposição De Musa ao Protagonismo e placa do Ateliê Casarão com arroba @ateliecasaraoipiranga
Leia mais!

De Musa ao Protagonismo: o Ateliê Casarão lotou um sábado e as obras ainda falavam quando o silêncio chegou

Curadoria de Bianca Foratori reúne 37 artistas no Ateliê Casarão Ipiranga numa abertura que durou o dia inteiro…
Leia mais!
Vogue visita a casa da Anitta, cantora e popstar
Leia mais!

Casa da Anitta: quadros que celebram brasilidade, ancestralidade, luxo e elegância

Eu sei, você tá aqui para ver um pouco da casa da Anitta. Prometo que, sim, você vai…
Leia mais!
Parede-galeria composta por diversos quadros florais de diferentes tamanhos e estilos, criando uma narrativa visual harmoniosa e sofisticada.
Leia mais!

Florais: a poética da natureza na curadoria de espaços contemporâneos

Desvende como a nova coleção de florais da Realidarte e técnicas de curadoria transformam ambientes em refúgios de sofisticação e bem-estar A natureza sempre foi a musa mais resiliente da história da arte.
Leia mais!
Leia mais!

Ateliê Casarão: a arte feminina em destaque na exposição “De Musa ao Protagonismo”

Com curadoria de Bianca Foratori, a mostra no Ateliê Casarão Ipiranga reúne 37 artistas, incluindo nomes como Ágatha…
Leia mais!
banksy
Leia mais!

Banksy: investigação da Reuters aponta identidade do artista

Banksy em foco: Uma nova investigação da Reuters cruza documentos e registros policiais para apontar Robin Gunningham como…
Leia mais!
Jean-Auguste Dominique Ingres A Virgem do véu azul, 1827
Leia mais!

20 obras imperdíveis do acervo do MASP: uma jornada pela História da Arte em São Paulo

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), com sua arquitetura icônica de Lina Bo Bardi…
Leia mais!