De José Antônio da Silva a Madalena Reinbolt: por que o mercado redescobre os artistas populares brasileiros

Madalena Santos Reinbolt, Untitled, 1969–77
Madalena Santos Reinbolt, Untitled, 1969–77. — Foto: Divulgação

Os artistas populares brasileiros vivem um momento de reposicionamento inédito no mercado. Na SP-Arte 2026, a preferência por obras com forte lastro institucional incluiu justamente esse segmento, ao lado da arte moderna e do conceitualismo latino-americano. O movimento não é passageiro. Ele reflete uma revisão profunda de quem conta a história da arte brasileira — e por quê.

Em uma exposição recente na galeria paulistana Gomide & Co., a artista paraguaia Julia Isídrez, que participou da Bienal de Veneza em 2024, dividiu espaço com a brasileira Maria Lira. São gerações, mídiuns e países diferentes.

Destaques da matéria

Contudo, ambas compartilham um traço essencial: abordam tradições indígenas e afro-indígenas a partir de um olhar contemporâneo. Para o galerista responsável pela mostra, esse tipo de trabalho deixou de ser tratado como arte folclórica e passou a ser visto, simplesmente, como arte.

Um rótulo, várias histórias

O termo arte popular abrange noções como folk, naïf, outsider e autodidata. Por décadas, ele se aplicou a quem trabalhou fora dos caminhos tradicionais da formação artística — frequentemente, artistas negros ou indígenas. O primeiro grande período de interesse por esse universo foi do final dos anos 1940 até o final dos anos 1970.

José Antônio da Silva, O Tintureiro (The Dryer), 1972. — Foto: João Liberato/Divulgação

Depois, o mercado se afastou. Com a ascensão da arte contemporânea no Brasil, esses nomes ditos populares foram relegados ao esquecimento comercial por décadas, segundo relatos do setor. A retomada recente desse interesse tem em galeristas e colecionadores especializados seus principais articuladores.

A criação da Bienal Naïf, em 1992, pelo SESC, ilustra bem esse ciclo. Artistas como Carmézia Emiliano e Dalton Paula, premiados na bienal em 2010 e 2008, respectivamente, foram primeiro vistos sob a moldura da arte popular. Depois, foram reclassificados como contemporâneos. Hoje, Paula tem a galeria internacional Lisson como sua representante.

Museus reescrevem a história

Desde 2016, a Pinacoteca de São Paulo e o MASP organizaram exposições individuais para artistas populares como Agostinho Batista, Carmézia Emiliano, Conceição dos Bugres, José Antônio da Silva, Maria Auxiliadora e Madalena Santos Reinbolt. Esses nomes deixaram de ser vistos como curiosidades regionais. Passaram a ser tratados como contribuintes centrais da história da arte, merecedores de canonização.


O movimento também atravessa fronteiras. José Antônio da Silva (1909-1996) é hoje tema de exposição individual no Musée de Grenoble, na França. Seu espólio integra ainda a mostra “Instituto Tomie Ohtake Visita a Coleção Vilma Eid – Em Cada Canto”, realizada em 2025 no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, com pinturas do artista expostas ao lado de outros nomes da coleção.

Installation view of “Instituto Tomie Ohtake Visits the Vilma Eid Collection – In Every Corner,” 2025, at Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, showing paintings by José Antônio da Silva. — Foto: Ricardo Miyada/Divulgação


Já a exposição “Brasil! Brazil! The Birth of Modernism”, da Royal Academy, incluiu nomes historicamente rotulados como populares, entre eles Djanira da Motta e Silva e Rubem Valentim. Ali, porém, a discussão os tratou como protagonistas do modernismo brasileiro — não como exceções pitorescas.

Para profissionais do setor, trata-se de um movimento global: instituições estrangeiras teriam se dado conta de lacunas em suas coleções e passado a prestar mais atenção à produção latino-americana, com destaque especial para o Brasil.

Raça, classe e o peso de um nome

A classificação como artista popular muitas vezes obscureceu identidade racial. Foi o caso de Madalena Santos Reinbolt: mulher negra numa pequena cidade do interior fluminense, ela foi descrita por seus contemporâneos como empregada doméstica — não como artista negra. A raça ficou implícita. A classe social, explícita.

Hoje, o debate muda de eixo. Nomear artistas populares como negros ou indígenas integra uma revisão mais ampla da história da arte brasileira. Isso se conecta a uma nova geração de artistas contemporâneos de grupos sub-representados, que tratam a raça como questão política central — não como dado periférico.

Nomes em ascensão

Miriam Inês da Silva (1939-1996) ilustra bem essa trajetória dupla. Formada em artes plásticas, participou das edições de 1963 e 1965 da Bienal de São Paulo como gravurista. Ao migrar para a pintura nos anos 1960 e adotar temas como carnaval, futebol e samba, foi rotulada como artista popular.

Elisa Martins da Silveira (1912-2001) também recebeu o rótulo, sem que isso a incomodasse particularmente, segundo entrevista concedida ainda em 1955. Sua obra integra atualmente uma exposição no Museu de Arte do Rio, que conecta sua produção a outros artistas populares e ao Grupo Frente, movimento liderado por Ivan Serpa nos anos 1950.

José Antônio da Silva, Untitled, 1987. — Foto: João Liberato/Divulgação

Madalena dos Santos Reinbolt (1912-1976) teve seu trabalho têxtil exibido em mostra monográfica no American Folk Art Museum, em Nova York, após estreia no MASP em 2022. Para a curadoria responsável, a obra da artista dialoga diretamente com questões levantadas pela arte feminista nas últimas décadas — um contraponto à tendência histórica de relegar trabalhos têxteis a um estatuto secundário de artesanato.

Um limite que desaparece

Colecionadores brasileiros como Vilma Eid, Edmar Pinto Costa, Heitor Martins, Fernanda Feitosa, Lilia e Luiz Schwarcz já incorporaram esses nomes a seus acervos. Entre profissionais do mercado, a percepção é unânime: a fronteira entre artistas populares e artistas contemporâneos está cada vez mais tênue, e tende a desaparecer por completo nos próximos anos.

Com informações de ARTnews


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