Os artistas populares brasileiros vivem um momento de reposicionamento inédito no mercado. Na SP-Arte 2026, a preferência por obras com forte lastro institucional incluiu justamente esse segmento, ao lado da arte moderna e do conceitualismo latino-americano. O movimento não é passageiro. Ele reflete uma revisão profunda de quem conta a história da arte brasileira — e por quê.
Em uma exposição recente na galeria paulistana Gomide & Co., a artista paraguaia Julia Isídrez, que participou da Bienal de Veneza em 2024, dividiu espaço com a brasileira Maria Lira. São gerações, mídiuns e países diferentes.
Destaques da matéria
- O termo “artistas populares brasileiros” abrange rótulos como folk, naïf, outsider e autodidata
- Primeiro ciclo de interesse: final dos anos 1940 a final dos anos 1970
- MASP e Pinacoteca de São Paulo promovem exposições individuais desde 2016
- A revisão atual conecta o tema a identidade racial e indígena
- Nomes centrais: José Antônio da Silva, Madalena Santos Reinbolt, Maria Auxiliadora, Heitor dos Prazeres, Elisa Martins da Silveira, Miriam Inês da Silva
- O movimento já é internacional, com exposições na França, no Reino Unido e nos Estados Unidos
Contudo, ambas compartilham um traço essencial: abordam tradições indígenas e afro-indígenas a partir de um olhar contemporâneo. Para o galerista responsável pela mostra, esse tipo de trabalho deixou de ser tratado como arte folclórica e passou a ser visto, simplesmente, como arte.
Um rótulo, várias histórias
O termo arte popular abrange noções como folk, naïf, outsider e autodidata. Por décadas, ele se aplicou a quem trabalhou fora dos caminhos tradicionais da formação artística — frequentemente, artistas negros ou indígenas. O primeiro grande período de interesse por esse universo foi do final dos anos 1940 até o final dos anos 1970.

Depois, o mercado se afastou. Com a ascensão da arte contemporânea no Brasil, esses nomes ditos populares foram relegados ao esquecimento comercial por décadas, segundo relatos do setor. A retomada recente desse interesse tem em galeristas e colecionadores especializados seus principais articuladores.
A criação da Bienal Naïf, em 1992, pelo SESC, ilustra bem esse ciclo. Artistas como Carmézia Emiliano e Dalton Paula, premiados na bienal em 2010 e 2008, respectivamente, foram primeiro vistos sob a moldura da arte popular. Depois, foram reclassificados como contemporâneos. Hoje, Paula tem a galeria internacional Lisson como sua representante.
Museus reescrevem a história
Desde 2016, a Pinacoteca de São Paulo e o MASP organizaram exposições individuais para artistas populares como Agostinho Batista, Carmézia Emiliano, Conceição dos Bugres, José Antônio da Silva, Maria Auxiliadora e Madalena Santos Reinbolt. Esses nomes deixaram de ser vistos como curiosidades regionais. Passaram a ser tratados como contribuintes centrais da história da arte, merecedores de canonização.
O movimento também atravessa fronteiras. José Antônio da Silva (1909-1996) é hoje tema de exposição individual no Musée de Grenoble, na França. Seu espólio integra ainda a mostra “Instituto Tomie Ohtake Visita a Coleção Vilma Eid – Em Cada Canto”, realizada em 2025 no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, com pinturas do artista expostas ao lado de outros nomes da coleção.

Já a exposição “Brasil! Brazil! The Birth of Modernism”, da Royal Academy, incluiu nomes historicamente rotulados como populares, entre eles Djanira da Motta e Silva e Rubem Valentim. Ali, porém, a discussão os tratou como protagonistas do modernismo brasileiro — não como exceções pitorescas.
Para profissionais do setor, trata-se de um movimento global: instituições estrangeiras teriam se dado conta de lacunas em suas coleções e passado a prestar mais atenção à produção latino-americana, com destaque especial para o Brasil.
Raça, classe e o peso de um nome
A classificação como artista popular muitas vezes obscureceu identidade racial. Foi o caso de Madalena Santos Reinbolt: mulher negra numa pequena cidade do interior fluminense, ela foi descrita por seus contemporâneos como empregada doméstica — não como artista negra. A raça ficou implícita. A classe social, explícita.
Hoje, o debate muda de eixo. Nomear artistas populares como negros ou indígenas integra uma revisão mais ampla da história da arte brasileira. Isso se conecta a uma nova geração de artistas contemporâneos de grupos sub-representados, que tratam a raça como questão política central — não como dado periférico.
Nomes em ascensão
Miriam Inês da Silva (1939-1996) ilustra bem essa trajetória dupla. Formada em artes plásticas, participou das edições de 1963 e 1965 da Bienal de São Paulo como gravurista. Ao migrar para a pintura nos anos 1960 e adotar temas como carnaval, futebol e samba, foi rotulada como artista popular.
Elisa Martins da Silveira (1912-2001) também recebeu o rótulo, sem que isso a incomodasse particularmente, segundo entrevista concedida ainda em 1955. Sua obra integra atualmente uma exposição no Museu de Arte do Rio, que conecta sua produção a outros artistas populares e ao Grupo Frente, movimento liderado por Ivan Serpa nos anos 1950.

Madalena dos Santos Reinbolt (1912-1976) teve seu trabalho têxtil exibido em mostra monográfica no American Folk Art Museum, em Nova York, após estreia no MASP em 2022. Para a curadoria responsável, a obra da artista dialoga diretamente com questões levantadas pela arte feminista nas últimas décadas — um contraponto à tendência histórica de relegar trabalhos têxteis a um estatuto secundário de artesanato.
Um limite que desaparece
Colecionadores brasileiros como Vilma Eid, Edmar Pinto Costa, Heitor Martins, Fernanda Feitosa, Lilia e Luiz Schwarcz já incorporaram esses nomes a seus acervos. Entre profissionais do mercado, a percepção é unânime: a fronteira entre artistas populares e artistas contemporâneos está cada vez mais tênue, e tende a desaparecer por completo nos próximos anos.
Com informações de ARTnews
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