Beatriz Milhazes: a geometria do afeto em camadas de tempo

Obra "Cabeça de Mulher" (1996), de Beatriz Milhazes
Foto: Divulgação
A Pinacoteca de São Paulo inaugura mostra inédita que revela o pensamento plástico e o rigor técnico por trás das gravuras da artista.

A cor, em Beatriz Milhazes, não é apenas pigmento; é estrutura. Conhecida mundialmente por suas telas vibrantes que fundem o barroco brasileiro ao modernismo europeu, a artista carioca agora ocupa o segundo andar do edifício Pina Estação com uma perspectiva mais íntima.

A exposição Beatriz Milhazes: Gravuras do Acervo da Pinacoteca de São Paulo reúne, pela primeira vez, um conjunto de 27 obras produzidas entre 1996 e 2019. A exibição revela, portanto, que a gravura, para Milhazes, é um laboratório de pensamento plástico em ação.

A mostra propõe um deslocamento de fato necessário: do impacto visual do resultado final para a complexidade do processo criativo. Como bem pontuou Sarah Santiago em sua recente reflexão sobre a SP-Arte 2026, onde a obra Fleur de la Passion Maracujá de Milhazes foi um dos pontos altos de contemplação, a circulação dessas peças nos permite acessar linguagens que redefinem nossa percepção estética.

Quem é Beatriz Milhazes?

Beatriz Milhazes é, sem dúvida, uma das artistas brasileiras mais influentes da cena contemporânea global. Sua trajetória é marcada por uma pesquisa incessante sobre a ornamentação, a geometria e a sobreposição. Na gravura, técnica que explora há mais de duas décadas em parceria com o impressor Jean-Paul Russell, da Durham Press, ela encontrou um campo de experimentação contínua.

Diferente da pintura, onde o gesto é direto, a gravura exige um raciocínio de construção por camadas. Na serigrafia — técnica predominante na exposição —, Milhazes testa, abandona e retoma matrizes, criando transparências e profundidades que desafiam a natureza tradicionalmente “chapada” do suporte.

O processo criativo: a serigrafia como campo de profundidade

Obra "Havaí" (2003) de Beatriz Milhazes, em exposição na Pinacoteca de São Paulo
Foto: Divulgação

A exposição na Pinacoteca evidencia como a artista subverte a técnica. Ao sobrepor matrizes, Milhazes produz vibrações cromáticas e efeitos de profundidade pouco usuais. Obras de grande formato, algumas com quase dois metros de largura, mostram que a escala, para ela, é uma ferramenta de imersão.

Entre arabescos, mandalas e colares de contas, surgem séries como a das especiarias. Essa série foi concebida inicialmente como uma unidade e depois fragmentada em quadros autônomos — como Cinnamon (Canela) e Red Pepper (Pimenta Vermelha). Desse modo, torna visível o uso e o reuso das mesmas matrizes ao longo dos anos, um eco do tempo que se acumula na obra.

Linguagem e temas: o barroco, a natureza e a abstração

A linguagem de Milhazes é um diálogo constante entre o rigor geométrico e a exuberância orgânica. Estampas florais organizadas como portais, guirlandas e ramos combinados a discos e espirais criam uma narrativa visual que remete tanto à botânica quanto à arquitetura barroca.

Obras como O Pato (1996) e Noite de Verão (2006) são exemplos de como a artista monta e remonta espaços, transformando a superfície da gravura em um território de memória e invenção. É uma arte contemporânea que não apenas decora, mas habita o olhar.

Arte e espaço: a Pinacoteca como guardiã do acervo

A Pinacoteca de São Paulo é o único museu do mundo a reunir este conjunto completo de gravuras de Milhazes, fruto de doações realizadas em 2009 e 2024. A ocupação do Pina Estação reforça o papel da instituição como um centro de preservação e difusão da arte brasileira.

Para o espectador, a mostra é uma oportunidade rara de ver “o pensamento em ação”. Ao caminhar entre as obras, percebe-se que a beleza em Milhazes não é gratuita; ela é fruto de um rigor técnico absoluto e de uma sensibilidade que entende a cor como uma forma de liberdade.

Sobre a Exposição Beatriz Milhazes: Gravuras do Acervo

  • Local: Pina Estação (Largo General Osório, 66, Santa Efigênia, São Paulo)
  • Período: 16 de maio de 2026 a 14 de março de 2027
  • Horário: Quarta a segunda, das 10h às 18h
  • Ingressos: R$ 40 (inteira). Grátis aos sábados e no segundo domingo do mês.
  • Curadoria: Renato Menezes

Com informações de Guia Folha


Descubra mais sobre Realidarte

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

You May Also Like
Fachada de parede de tijolos com cartaz da exposição De Musa ao Protagonismo e placa do Ateliê Casarão com arroba @ateliecasaraoipiranga
Clique e leia

De Musa ao Protagonismo: o Ateliê Casarão lotou um sábado e as obras ainda falavam quando o silêncio chegou

Curadoria de Bianca Foratori reúne 37 artistas no Ateliê Casarão Ipiranga numa abertura que durou o dia inteiro…
Clique e leia
Clique e leia

Ateliê Casarão: a arte feminina em destaque na exposição “De Musa ao Protagonismo”

Com curadoria de Bianca Foratori, a mostra no Ateliê Casarão Ipiranga reúne 37 artistas, incluindo nomes como Ágatha…
Clique e leia
banksy
Clique e leia

Banksy: investigação da Reuters aponta identidade do artista

Banksy em foco: Uma nova investigação da Reuters cruza documentos e registros policiais para apontar Robin Gunningham como…
Clique e leia
Artista e ativista indígena Daiara Tukano assina mural em homenagem a Aílton Krenak no Vale do Anhangabaú a convite da Virada Sustentável.
Clique e leia

Ailton Krenak: o rosto da resistência indígena no coração de São Paulo

Mural monumental de Daiara Tukano, inaugurado no Vale do Anhangabaú, transforma o Edifício Guanabara em um manifesto visual…
Clique e leia