A CAIXA Cultural Salvador recebe exposição que reúne Portinari, Adriana Varejão e Djanira para repensar a natureza, a ancestralidade e o colapso climático.
A paisagem nunca é apenas o que os olhos alcançam. Ela é o acúmulo do tempo, a cicatriz da história e o reflexo das tensões de uma época. É a partir dessa premissa que a CAIXA Cultural Salvador recebe, a partir de 27 de maio, a exposição Paisagens em Travessia.
Reunindo mais de 40 obras de nomes fundamentais da arte contemporânea brasileira e do modernismo, a mostra propõe uma imersão visual nas múltiplas formas de perceber, construir e transformar os territórios.
Com curadoria de Daniel Barretto e Daniela Matera, a exposição apresenta pinturas, esculturas, gravuras, fotografias e instalações que transcendem a visão idílica da natureza. Obras de artistas como Adriana Varejão, Anna Bella Geiger, Djanira, Cândido Portinari, Siron Franco e Xadalu Tupã Jekupé dialogam entre si, atravessando temas urgentes como a devastação ambiental, a expropriação dos corpos, a memória coletiva e a potência de futuros ancestrais.
O que é a exposição Paisagens em Travessia?
Realizada em parceria entre o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e a CAIXA Cultural, com participação do Museu Nacional de Belas Artes, a mostra chega a Salvador após passagem por Belém (PA). A curadoria organiza o acervo em cinco núcleos estruturais: O corpo da arte; Paisagem, utopia, distopia; O eclipse que está por vir; Imaginar o porvir e Aprender a viver com os vivos.
Essa divisão não é acidental. Ela conduz o espectador por uma narrativa que começa na materialidade da obra e avança para o colapso climático, culminando na necessidade de repensar a coexistência. “A paisagem não é apenas aquilo que vemos, mas aquilo que construímos a partir de atravessamentos históricos, sociais e afetivos”, destacam os curadores.
O processo criativo da curadoria: entre memória e urgência
A seleção das obras evidencia um processo curatorial focado na tensão. Não se trata de uma contemplação passiva. Ao colocar lado a lado a pintura modernista de Portinari e a materialidade visceral de Adriana Varejão, a exposição cria um curto-circuito temporal. A arte brasileira é apresentada como uma ferramenta de escuta e denúncia.
“A travessia é também um convite à reflexão: que paisagens estamos produzindo e que futuros estamos projetando a partir delas?”, questionam Barretto e Matera. A curadoria de arte, neste contexto, atua como um espelho crítico das urgências do presente, utilizando a cultura visual para debater justiça climática e ancestralidade.
Linguagem e temas da obra: a paisagem como construção política
A estética da exposição transita entre o registro documental e a abstração simbólica. A pintura em óleo, a técnica mista e a fotografia são utilizadas para desconstruir a ideia de uma natureza intocada. As obras de Anna Bella Geiger e Siron Franco, por exemplo, frequentemente exploram a cartografia e a intervenção humana, transformando o mapa e o território em campos de disputa.
A presença de Xadalu Tupã Jekupé insere a perspectiva indígena contemporânea, reforçando que a memória da terra é inseparável dos corpos que a habitam. A paisagem deixa de ser cenário e assume o protagonismo como sujeito histórico e político.
Arte e espaço: o impacto cultural em Salvador
Ao ocupar a CAIXA Cultural Salvador, localizada no Centro Histórico, a exposição ganha uma nova camada de significado. A arquitetura do espaço dialoga com as obras, criando uma atmosfera onde a arte contemporânea e a memória urbana se encontram. A mostra não apenas exibe quadros; ela estabelece uma presença que convida o público baiano a repensar sua própria relação com o território e a identidade.
A arte, quando bem posicionada no espaço, deixa de ser objeto e se torna experiência. Paisagens em Travessia é um lembrete de que a cultura visual tem o poder de ancorar reflexões profundas sobre quem somos e o mundo que estamos moldando.
Sobre a Exposição Paisagens em Travessia
- Local: CAIXA Cultural Salvador (Rua Carlos Gomes, 57, Centro)
- Abertura: 27 de maio de 2026, às 19h
- Período de visitação: 28 de maio a 16 de agosto de 2026
- Horário: Terça a domingo e feriados, das 9h às 18h
- Entrada: Gratuita (Classificação Livre)
- Acessibilidade: Abertura com intérprete de Libras; imagens com audiodescrição.
- Atividade paralela: Visita guiada com curadores e lançamento de catálogo no dia 27 de junho, às 15h.
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