Juliana Pinho (Retinta): descubra a cor e potência do pertencimento

Juliana Pinho, Retinta, em sua exposição no Provisório Bar, em São Paulo
Juliana Pinho ao lado de suas obras em sua exposição no Provisório, no Centro de São Paulo. — Foto: Jefferson Gonçalves

A entrevista com a Juliana Pinho, a Retinta, aconteceu numa quarta-feira de abril, dia de roda de Samba na esquina da Avenida São João com a Rua Formosa — no famoso Vale do Anhagabaú, no coração de São Paulo. Ali, antes mesmo de começarmos a conversar numa das mesas do Provisório Bar (um hub para artistas independentes), enquanto a artista ainda nem me percebia, foi possível perceber que a sua integração coma cultura negra e a comunida é algo forte. Quando começamos a conversar, ficou bem evidente.

Quem caminha pelas ruas de Taboão da Serra ou se perde nos murais da zona sul de São Paulo pode, de repente, ser atravessado por um azul que não pertence ao céu. É um azul elétrico, profundo, que habita a pele de personagens cujos olhos parecem guardar segredos de séculos.

Esse azul tem nome e sobrenome artístico: Juliana Pinho, ou simplesmente Retinta. Aos 26 anos, a artista visual, grafiteira e MC não apenas pinta paredes; ela as utiliza para ecoar uma revolta que se transforma em cura, ressignificando o que o sistema tentou apagar.

Destaques do Perfil:

Juliana Pinho não chegou à arte pelas galerias de mármore ou pelos manuais de arte europeia. Sua história começou no Rio Pequeno, onde nasceu, e se consolidou no asfalto de Taboão da Serra. Para ela, a arte foi um refúgio encontrado na infância, uma forma de processar o mundo que começou de maneira quase intuitiva, entre folhas de papel e histórias em quadrinhos.

Entre rio e asfaltos

Juliana Pinho não chegou à arte pelas galerias de mármore ou pelos manuais de arte europeia. Sua história começou no Rio Pequeno, onde nasceu, e se consolidou no asfalto de Taboão da Serra. Para ela, a arte foi um refúgio encontrado na infância, uma forma de processar o mundo que começou de maneira quase intuitiva, entre folhas de papel e histórias em quadrinhos.

A entrada no universo do graffiti aconteceu sem que ela soubesse, tecnicamente, o que era o movimento Hip-Hop. O acesso ao material veio de casa: seu pai, serralheiro, guardava tintas que se tornaram o primeiro arsenal da jovem artista. “Eu peguei as tintas e reproduzi numa parede essa arte de uma forma ampla. E de repente eu entendi o que era o graffiti, o que era o hip hop, também por vivências de rua. Foi algo bem natural mesmo”, recorda.

A origem do nome “Retinta”

Para Juliana, a “Retinta” não é apenas uma assinatura rápida em um muro de concreto. É um manifesto. No dicionário, retinto é aquilo que recebeu nova cor ou que possui uma tonalidade muito escura.

Na vida de Juliana, é a aceitação plena de uma identidade que, por muito tempo, foi alvo de tentativas de silenciamento. “A pessoa por trás das tintas é a mesma que se revolta, que grita e que faz ecoar nas paredes o que acredita”, afirma a artista.

Em poucas palavras: Juliana Pinho (Retinta) é uma artista autodidata de Taboão da Serra (SP) que atua no graffiti, fotografia e música desde 2019. Sua obra é centrada na luta dos povos, no movimento negro e na busca pelo que é real, utilizando a arte urbana como ferramenta de inclusão.

Essa formação “no corre” deu a Juliana uma perspectiva única sobre o valor do trabalho artístico. Enquanto o senso comum muitas vezes via a arte como algo “que não dá dinheiro” ou “não é profissão”, ela entendeu cedo que sua existência era, por si só, um ato político.

Seu primeiro contato com o público aconteceu no projeto “Despertar Cultural”, uma iniciativa que visibilizava artistas de Taboão, Campo Limpo e Embu das Artes — territórios que ainda hoje pulsam em cada traço de sua obra.

Desde o início de sua trajetória, Juliana entendeu que ocupar o espaço público com sua imagem e sua voz era um ato de retomada. Como cofundadora do Slam do Taboão, ela ajudou a construir palcos onde a palavra é a arma principal. No graffiti, essa palavra ganhou volume, sombra e, principalmente, uma cor que desafia a lógica cromática tradicional.

A escolha do nome artístico reflete o desejo de ser lida sem ambiguidades. Juliana explica a força por trás dessa decisão:

“Quando eu escolhi o meu nome artístico, que é Retinta, eu já pensei nessa afirmativa. Das pessoas lerem o meu nome e já entenderem o que que é: que é uma mulher de pele negra mais escura. O ‘retinta’ é algo… então já foi muito isso, de tipo ‘ó, eu sou isso, é isso, quero que me entendam a partir do que eu estou dizendo’. E é muito difícil a gente chegar a esse patamar, sabe?”

Seria leviano se eu não apontasse para a poesia ma escolha desse nome — indepentende de ser ou não intencional, num primeiro momento. Mesmo querendo evitar ambiguidades, “Retinta” também acaba trazendo consigo o viver artístico de Juliana Pinho.

O azul como pele

Uma das marcas mais distintas do trabalho de Retinta é a escolha do azul para representar a pele negra. Não se trata de uma fantasia descolada da realidade, mas de uma observação sensível sobre a luz.

Juliana percebeu que a pele de tons mais escuros, quando banhada por certas iluminações, reflete matizes azulados. Ao transpor isso para o muro, ela cria uma nova mitologia visual.

Em poucas palavras: A personagem "Ébano" é uma das faces centrais da obra de Retinta. Com pele azul reluzente e o Olho de Hórus — símbolo de ordem sobre o caos —, ela representa um autorretrato de autoafirmação e revolta contra o apagamento estético.

“Personagens na cor azul, para mim, sempre são negros”, explica Juliana. Essa escolha subverte a carência histórica de representação e coloca o corpo negro em um lugar de destaque quase místico, onde a cor não é apenas pigmento, mas uma aura de poder e resistência. É a “potência” ocupando o lugar que o racismo tentou destinar à “carência”.

“Pra mim a arte é um ato político. Todas as artes que eu faço têm algum questionamento. Geralmente, eu trago muito essa figura que é a minha persona — ‘Ébano’ o nome, que fala sobre uma mulher negra. Quando eu comecei a grafitar, eu sentia muita falta de mulheres negras ali sendo representadas nas paredes da quebrada e de outros lugares. Então eu comecei a colocar isso nos muros e eu vi que uma imagem fala muito mais do que palavras”.

Referência de perto

Diferente de muitos artistas que buscam inspiração em nomes canônicos, as referências de Juliana são de carne, osso e proximidade. Ela defende que o artista e a arte não se dividem, e por isso suas maiores influências são as pessoas que caminham ao seu lado no cotidiano.

“Eu não tive um acervo cultural. Muito sobre toda essa cultura eu aprendi na rua. Minhas referências são próximas. Por exemplo, minha melhor amiga, a Érica. Ela entrou na minha vida aos 13 anos e foi uma referência muito grande sobre pautas raciais e de classe que eu não entendia. Muito do meu desenvolvimento dependeu dessas pessoas, de uma forma intelectual. Os assuntos que eu elaboro vieram de quem estava ao meu lado”, explica Juliana.

Essa rede de apoio e troca intelectual é o que sustenta sua atuação na Estilo Livre Crew e no Jornal Correria. Para Retinta, a arte é um processo compartilhado, uma construção que envolve rodas de samba, sound systems e o universo underground, onde a troca é “muito verdadeira”.

A arte de Juliana Pinho (Retinta) é política

Se “Ébano” é a face da autoafirmação, “Fúria” é a face do grito. Juliana não separa o pincel do ativismo. Sua arte é explicitamente política, voltada para a denúncia de sistemas que oprimem o trabalhador e invisibilizam as mulheres.

Sua participação no Zine “SERCAOS” trouxe à tona a luta pelo fim da escala 6×1, utilizando a ilustração como ferramenta de conscientização.

Em poucas palavras: A arte de Retinta é um instrumento de denúncia social. Através de personagens como "Fúria", ela aborda temas como a exploração do trabalho, o apartheid social e o apagamento das mulheres na cultura Hip-Hop e no graffiti.

Juliana frequentemente questiona: “Cadê o reconhecimento para as minas que sempre somaram nessa cultura?”. Sua presença em documentários como Estação São Bento Hip Hop e sua colaboração com o coletivo Mulheres no Hip-Hop são movimentos estratégicos para garantir que a nova geração de grafiteiras não precise lutar pelo básico: o direito de ser lembrada e valorizada.

Sendo a Retinta, a artista entende que seu corpo e sua arte são lidos através de camadas de preconceito estrutural, e sua resposta é a invasão consciente de espaços:

“Sempre foi destinado um espaço específico para mim. Eu acredito que os corpos são lidos de uma certa forma e são jogados numa caixa. Por exemplo: nós que somos mulheres negras, a gente vai ser lida… a minha esteticidade, o meu corpo, tudo sobre mim será visto sempre como um corpo de uma mulher que é muito sexualizada. Eu quis muito furar essa bolha. Eu entendi que sempre seria jogada para essa parte sexualizada, mas eu sei que minhas palavras têm muito mais a contar. Eu sei que elas têm um poder muito mais forte. Então eu sempre busquei meios para que minhas palavras chegassem antes do que o meu corpo.”

Confira a participação de Juliana Pinho no Estação São Bento Hip Hop:

Juliana Pinho — Por Toda (P)arte

O trabalho de Juliana transborda os limites da tela e do muro. A arte e influência dessa jovem artista negra independente atua como uma ponte para outros talentos periféricos. Sua exposição “Por Toda (P)arte” é um exemplo de como o processo criativo — o rascunho, a tinta na mão, o erro e o acerto — é tão importante quanto a obra final.

Para ela, o sucesso individual não faz sentido se for solitário. Sua visão sobre o reconhecimento é profundamente coletiva:

“Eu nunca fiz uma exposição que fosse totalmente, somente da Retinta, só minha. Eu acho que eu sou pelo que nós somos. Então, no momento que eu consigo ocupar espaços, eu quero trazer todo mundo que esteve junto comigo na caminhada toda. Isso é sobre pessoas que me falaram mensagens que mudaram minha vida e tudo mais. Por agora, eu acho que eu não quero fazer algo só meu. Eu quero levar todos comigo.”

Para Juliana, “tomar posse do que é nosso” significa usufruir de locais de pertencimento que muitas vezes proíbem a juventude negra e periférica de ter acesso. Ao levar o debate sobre arte e identidade para dentro das escolas e centros culturais, Juliana planta sementes de um futuro onde ninguém precise lidar com o silenciamento.

O Futuro é Ancestral

“Observe ao redor, o futuro é ancestral”. Esta frase, recorrente em suas redes e obras, resume a filosofia de Juliana Pinho.

Ela entende que sua caminhada é só é possível por causa dos passos de quem veio antes — como Dandara dos Palmares e as pioneiras do graffiti brasileiro. Sua arte é um elo entre o passado de luta e um futuro de possibilidades.

Ao ser questionada sobre onde quer chegar, Juliana revela uma ambição que vai além das galerias tradicionais:

“Eu não consigo imaginar onde eu vou estar, mas eu sei os lugares que eu quero alcançar. Eu quero que as mulheres se empoderem mais. Eu quero também ser um espelho. Eu quero que as pessoas vejam essa imagem e abram mais espaço para esse público, que descriminalizem tudo aquilo que está atrelado, sabe? Não é só sobre ocupar espaços, mas é sobre alcançar pessoas e levar uma mensagem que seja positiva. É sobre autoestima, é sobre muita coisa mesmo.”

Juliana Retinta é, acima de tudo, uma artista que se refaz a cada traço. Seja no spray, na fotografia ou no microfone do Slam, ela nos lembra que as palavras — e as cores — nunca voltam vazias. Elas ocupam, transformam e, finalmente, libertam.

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