Rubem Valentim: a ordem do sensível e a geometria do sagrado

A obra de Rubem Valentim (1922-1991) é um dos pilares mais sólidos da cultura visual brasileira. Em cartaz no MAM Rio, a exposição “A Ordem do Sensível” propõe um percurso geográfico e poético pelas cidades que moldaram sua produção: Salvador, Rio de Janeiro, Roma, Brasília e São Paulo.

Com cerca de 180 trabalhos, a mostra revela como Valentim soube aliar o rigor da abstração geométrica ao universo simbólico do candomblé e da umbanda. O artista não fazia uma transposição direta do religioso, mas criava uma linguagem plástica original. Ele bebia na fonte do sagrado para construir uma estética que dialoga com o pensamento concreto, sem jamais perder a conexão com o sensível.

Como observamos na curadoria de Raquel Barreto e Phelipe Rezende, Rubem Valentim utilizava ícones como a folha tripartite de Ossain e as flechas de Oxóssi como elementos de composição formal. Para o artista, a preocupação primeira era a construção de uma linguagem brasileira universal.

Rubem Valentim, 'Relevo Emblema' (1979)
Rubem Valentim, ‘Relevo Emblema’ (1979) . — Imagem: Jaime Acioli/Divulgação

Uma flecha, em sua obra, é simultaneamente um símbolo de orixá e uma forma geométrica pura. Essa capacidade de síntese permitiu que Valentim participasse de momentos históricos, como o Festival Mundial de Artes Negras em Dacar, em 1966, celebrando a negritude e a diáspora através de uma têmpera criada durante sua fase em Roma.

O Templo de Oxalá e a imersão no branco

Um dos pontos altos da exposição no MAM é a remontagem da instalação “Templo de Oxalá”. Originalmente apresentada na Bienal de São Paulo de 1977, a obra consiste em 20 totens de madeira pintada de branco.

A disposição permite que o visitante caminhe entre as estruturas, experimentando uma imersão física na poética de Rubem Valentim. O trabalho sintetiza a maturidade do artista, onde a cor branca unifica os símbolos e eleva a geometria a um plano monumental.

Rubem Valentim, ‘Pintura n° 28’, 1965, obra que participou da exposição em Dacar. — imagem: Jaime Acioli/Divulgação

É uma oportunidade rara para as novas gerações entrarem em contato com a produção de um nome que, embora consagrado, ainda oferece camadas infinitas de descoberta.

A trajetória de Rubem Valentim é marcada pela pesquisa exaustiva e pelo estudo das formas. A curadoria destaca que sua obra não deve ser lida apenas sob o prisma da raça, mas como o resultado de um intelecto brilhante que operava a partir da matéria e do espírito.

VEJA TAMBÉM: RUBEM VALENTIM NA CASA DE JOÃO VICENTE DE CASTRO

Valentim foi um dos nomes mais importantes da segunda metade do século XX, e sua presença no MAM Rio, após seis décadas de ausência em mostras individuais na instituição, reinscreve sua “ordem do sensível” no debate contemporâneo sobre a arte brasileira.

Serviço: Rubem Valentim – A Ordem do Sensível

Rubem Valentim,'Composição 17' (1962)
Rubem Valentim,’Composição 17′ (1962)

A exposição percorre todas as fases do artista, desde os desenhos em nanquim dos anos 1950 até as esculturas monumentais de Brasília.

  • Local: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio – Av. Infante Dom Henrique, 85).
  • Período: Em cartaz até 2 de agosto de 2026.
  • Horário: Quarta a domingo, das 10h às 18h.
  • Entrada: Gratuita.

Com informações de Folha de S.Paulo


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