- Bienal de Veneza em foco: A edição de 2026 abre suas portas como um território de confronto, onde a anatomia humana e as tensões geopolíticas se fundem em uma narrativa visceral.
- Corpo e Resistência: Artistas de diversos continentes utilizam a escultura, a fotografia e a instalação para denunciar atrocidades e celebrar a resiliência da vida.
- Curadoria Póstuma: Sob o legado da diretora Koyo Kouoh, a mostra transforma o Arsenale em uma procissão de identidades que desafiam o silenciamento e a morte.
A Bienal de Veneza de 2026 consolida-se como a edição mais polêmica e necessária dos últimos tempos. No centro de um furacão geopolítico, a mostra italiana abandona a assepsia institucional para mergulhar nas dores e na beleza agreste do presente.
O Arsenale, antigo pavilhão de navios de guerra, transforma-se em um cemitério às avessas, onde a vida floresce a partir do trauma.
A diretora artística, a camaronesa Koyo Kouoh, que faleceu durante o processo de idealização, deixou um roteiro de corpos elásticos, ausentes e totêmicos que gritam contra a violência de Estado e o apagamento histórico.
Como observamos na procissão do Arsenale, a anatomia humana é o fio condutor. Guadalupe Maravilla utiliza redes de dormir e carrinhos de bebê para denunciar a detenção de crianças nas fronteiras americanas.

Em contraste, Carrie Schneider constrói um quilômetro de imagens fotográficas que capturam a intimidade espectral do corpo. A mostra cresce ao tocar na angústia de estarmos vivos, justapondo a carne quente à desaparição iminente.
A flora da morte e a geometria do fetiche
A relação entre o corpo e a natureza ganha contornos monumentais com Nick Cave, cujas esculturas moldadas à própria figura dão lugar a galhos e flores, transformando a morte em vida potente.

Essa simbiose entre o humano e o orgânico é levada ao extremo pela dupla Rajni Perera e Marigold Santos, em esculturas de argila que fundem o corpo feminino ao solo, criando aquários de vida nova.
Já a nigeriana Ranti Bam apresenta corpos amorfos e totêmicos, enquanto o queniano Kaloki Nyamai impõe pinturas monumentais onde silhuetas parecem sobrevoar o espectador.

A violência mundana e o fetiche também encontram espaço na Bienal de Veneza.
O sul-africano Nicholas Hlobo costura corpos-cadáveres de borracha e madeira, evocando o universo das oficinas mecânicas e o fetiche gay em figuras rastejantes que clamam por existência.

Em paralelo, os desenhos de Tabita Rezaire flutuam sobre tecidos esvoaçantes, criando um contraponto de leveza em meio à densidade da mostra.
Diálogos geopolíticos e o futuro da cultura visual
A mostra não foge dos conflitos na Faixa de Gaza, Ucrânia e Irã, mas busca um contraponto mais fino nas violências cotidianas. O israelense Avi Mograbi justapõe imagens de viagens pelo Oriente Médio com listas telefônicas antigas, resgatando um tempo em que as pessoas eram listadas por profissões, não por religião.
O francês Kader Attia coloca o futuro em perspectiva em uma instalação que entrevista videntes asiáticos através de estilhaços de espelhos, criando um jogo perigoso de reflexos e cortes.

A ala americana traz o contraste entre a cultura latina de Los Angeles, capturada por Guadalupe Rosales, e o documentário existencial de Rose Salane sobre as conversas banais das ruas de Nova York. Enquanto Werewere Liking imagina skylines futuristas para as metrópoles africanas, a Bienal de Veneza sussurra que a vida é bela apesar das bombas.
Esta edição reafirma que a arte é o único jazz desastrado capaz de manter a humanidade acesa enquanto o mundo arde.
Com informações de Folha de S.Paulo
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