Paço das Artes abre 30ª Temporada de Projetos com esculturas de ossos, porcelana e memória racial

Paço das Artes, Temporada de Projetos 2026
Ilustração: Divulgação

O Paço das Artes inaugura, em 16 de junho, a 30ª edição da Temporada de Projetos. A mostra segue em cartaz até 6 de setembro, com entrada gratuita. Criada em 1996, a iniciativa é um espaço fundamental para a arte contemporânea brasileira. Voltada a produções emergentes, ela also fortalece a reflexão crítica que acompanha esse tipo de produção.

Para 2026, um júri formado por Alexandre Sequeira, Lívia Aquino, Cecília Bedê e Renato De Cara, curador da instituição, selecionou três projetos artísticos individuais e um projeto de curadoria coletiva.

Ossos que se tornam estrutura

Juniara Albuquerque assina Estudos sobre ossos, com acompanhamento crítico de Lucas Dilacerda. A artista usa ossos de animais para criar esculturas que transitam entre o natural e o industrial. A técnica de pintura automotiva, aprendida com o pai, pintor de carros há mais de trinta anos, atravessa toda a pesquisa.

Sete esculturas serão apresentadas suspensas por correntes. Assim, o ambiente resultante combina leveza e tensão. As peças evocam corpos em transição — entre o peso e a flutuação, entre presença e desaparecimento. Albuquerque afirma o Nordeste como território de invenção, onde saberes técnicos e afetivos se entrelaçam.

O corpo doméstico em porcelana e meia-calça

Karina Walter apresenta Eu posso me rebelar contra a porcelana, com acompanhamento crítico de Paula Borghi. O projeto investiga o corpo domesticado da mulher, construído entre os objetos que a rodeiam em casa.

As obras combinam louças de porcelana — símbolo de refinamento, delicadeza e fragilidade — com meias finas, esgarçadas até o limite das fibras. Ferragens como porcas e parafusos, associadas ao universo masculino, dão forma final às peças. Dessa maneira, o trabalho questiona diretamente os papéis de gênero.

Migração como fricção e reinvenção

Oriana Pérez assina La cura para el inmigrante es encontrar nuevos códigos, acompanhada criticamente por Nathalia Grilo. O projeto investiga identidades em trânsito a partir da experiência migrante.

A artista parte da atual diáspora venezuelana, uma das maiores deslocações populacionais do mundo, com mais de 7,7 milhões de pessoas fora do país.

A pesquisa entende a migração como duplo deslocamento: perda parcial do repertório simbólico de origem e necessidade de criar novos códigos de existência no destino.

Álbuns de família e o direito à memória

Rodrigo Lopes assina o projeto de curadoria As nossas imagens, com obras de Anderson Feliciano, Eliana Amorim, Pedra Silva e Val Souza. A exposição discute o direito à memória a partir de álbuns e fotos de família.

O ponto de partida é a noção de álbum como “arquivo branco” — um arquivo marcado, no Brasil, pelo trauma colonial. Historicamente, a possibilidade de eternizar a própria imagem foi garantida, sobretudo, às famílias escravocratas. Com instalação, colagem, videoperformance e fotografia, a mostra expande o álbum de algo íntimo para uma discussão racial e histórica mais ampla.

Serviço: Temporada de Projetos 2026 — Paço das Artes

  • De 16 de junho a 6 de setembro de 2026
  • Terças a sábados, das 11h às 19h; domingos e feriados, das 12h às 18h
  • Rua Albuquerque Lins, 1345 — Higienópolis, São Paulo
  • Entrada gratuita


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