Há algo simultaneamente familiar e inquietante na Sala dos espelhos, individual de Rodrigo Andrade em cartaz na Almeida & Dale, em São Paulo. O título não é escolha casual. Para o artista, a sala de espelhos é ao mesmo tempo atração popular e cenário de thriller psicológico. Assim, a exposição opera exatamente nesse limiar: entre o que é comum e o que é esquisito.
Doze pinturas inéditas, algumas com quase três metros de altura, compõem a mostra. Com curadoria de Germano Dushá, os trabalhos foram realizados entre 2025 e 2026 e aprofundam uma investigação que Andrade conduz há mais de quatro décadas.
A referência que dá nome à mostra
O título remete diretamente a Room Full of Mirrors, de Jimi Hendrix. Não é citação decorativa. A música embala a ambiguidade que estrutura toda a mostra.
Nas palavras do próprio artista:
“Me interessa que Sala dos espelhos pertença a uma cultura comum, algo pop, quase vulgar — que está bem presente na exposição. Há também uma dimensão lúdica aí que é fundamental: é um jogo de espelhos, um jogo com regras determinadas. Cada pintura parte de um conjunto de princípios claros que depois vão ser confrontados pela própria natureza da matéria, pelo imprevisível do processo.”
E acrescenta: “Soa como título de um filme de gênero, ou um cenário para uma cena de suspense. É algo comum, mas esquisito.”
O que as telas têm dentro
As telas se impõem como portais no espaço expositivo: massas densas de tinta, recintos interiores habitados por formas gráficas e objetos cotidianos (espelhos, mobiliários, presenças espectrais).
As composições partem de princípios visuais definidos, perspectiva com pontos de fuga precisos, grandes blocos cromáticos. Portanto, há regra. Contudo, a matéria da tinta resiste, escorrega, surpreende. O que emerge são ambientes liminares: entre o rigor construtivo e a pulsão expressiva, entre o figurativo e o psicológico.

As pinturas maiores chegam, de fato, a quase três metros de altura. Diante delas, o espectador é envolvido pela massa de tinta. A perspectiva, construída com pontos de fuga bem definidos, cria espacialidades densas (uma convenção que Andrade estabelece para depois combater).
Quatro décadas de pintura sem repetição
Rodrigo Andrade (São Paulo, 1962) iniciou sua trajetória nos anos 1980, quando a pintura retomava fôlego no Brasil. Com outros artistas da geração, formou o Casa 7, ateliê coletivo que ganhou projeção nacional e internacional com mostras em instituições de peso.
Desde então, a prática nunca parou e nem se repetiu. Suas obras integram acervos do MAM São Paulo, da Pinacoteca de São Paulo, do MAC Niterói, do MAC USP, do Museu de Arte da Pampulha e do Instituto Itaú Cultural.
Entre as exposições recentes, destacam-se Pintura Paisagem (Millan e Almeida & Dale, 2022) e Rodrigo Andrade — Pintura e Matéria, que percorreu a Fundação Iberê Camargo e o Museu Oscar Niemeyer no mesmo ano.
- Serviço Exposição: Rodrigo Andrade: Sala dos espelhos
- Curadoria: Germano Dushá Almeida & Dale
- Endereço: Rua Fradique Coutinho, 1360, São Paulo
- Duração: até 20 de junho de 2026
- Quando: segunda a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 11h às 16h
- Bilheteria: Entrada gratuita
Com informações de Aurora Cultural e Almeida & Dale.
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