O Museu Afro Brasil, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, apresenta até 26 de julho a exposição Um Xirê Para Emanoel. A mostra homenageia Emanoel Araujo, fundador do museu e um dos maiores articuladores da arte afro-brasileira nas instituições culturais do país e do mundo. Para isso, reúne obras do artista baiano Alberto Pitta e criações de Mãe Detinha de Xangô, artista e sacerdotisa baiana.
O percurso foi concebido como uma roda (precisamente o que o título sugere). Na religião de matriz africana, o xirê é o momento em que os orixás são saudados e recebidos pelos fiéis em celebração coletiva. O termo tem origem iorubá e significa roda ou dança. Portanto, a escolha do nome não é ornamental: é a estrutura da mostra.
Da rua para o museu
Alberto Pitta é um dos criadores mais influentes da estética do carnaval negro baiano. Por mais de quatro décadas, ele desenvolveu uma prática visual que entrecruza saberes afro-brasileiros, espiritualidade e experimentação gráfica. O tecido é seu meio principal, uma plataforma para educação não hegemônica, que forja conexões entre arte, história e experiência coletiva.
Desde os anos 1980, suas criações marcaram blocos como Ilê Aiyê, Olodum, Filhos de Gandhy e o Cortejo Afro, do qual é fundador. Na exposição do Museu Afro Brasil, porém, esse repertório muda de escala. “Eu tiro dos panos de bloco e trago para as telas”, afirma o artista. As pinturas reunidas na mostra atravessam referências aos orixás, aos terreiros de candomblé e a outros símbolos da religiosidade afro-brasileira.
Filho de Mãe Santinha de Oyá (liderança espiritual, educadora, bordadeira e fundadora do Ilê Axé Oyá, no bairro de Pirajá, em Salvador) Pitta cresceu dentro das práticas artísticas e existenciais do candomblé. Essa origem não é referência distante: é o fio que percorre toda a sua obra e, por extensão, toda a exposição.
Três vozes em roda
Na mostra, os relevos geométricos de Emanoel Araujo dialogam com as cores, tecidos e signos africanos da produção de Pitta. Em outro núcleo, as bonecas abayomi criadas por Mãe Detinha de Xangô introduzem dimensões de cuidado e ancestralidade. Assim, três linguagens distintas se encontram sem hierarquia — como numa roda.

“A gente trata a arte a partir do legado dos orixás, da nossa religiosidade”, diz Pitta sobre a conexão entre sua obra, a do homenageado e a de Mãe Detinha. “Eu trago para o museu aquilo que se pode ver, fotografar, tocar, sentir e falar sobre as religiões de matriz africana. É o público do sagrado.”
A conexão com a espiritualidade, portanto, não é tema da mostra. É seu método.
A celebração como forma de continuidade
O título foi sugerido pelo próprio Pitta. “Como é que eu posso chegar nesse lugar, se não com uma festa, com uma saudação, com uma celebração para Emanoel?”, explica o artista.
Emanoel Araujo morreu em setembro de 2022, aos 81 anos. Fundou o Museu Afro Brasil em 2004, após uma trajetória que incluiu a direção da Pinacoteca de São Paulo e a curadoria de exposições em museus de todo o mundo. Sua obra como artista plástico também deixou marca: os relevos geométricos presentes na mostra são parte dessa produção, agora colocada em diálogo com a de quem veio depois.
Para Pitta, a exposição carrega uma mensagem de continuidade. O xirê não ra: recomeça.
Serviço — Um Xirê Para Emanoel
Museu Afro Brasil— Parque Ibirapuera, São Paulo
Duração: Até 26 de julho de 2026
Com informações da Folha de S.Paulo.
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