Paulo Roberto Leal: a geometria maleável que desafia o tempo

Paulo Roberto Leal, Cartas, 1981. Assinada e datada, papel e linha de seda, dimensões variáveis
Foto: Ding Musa/Divulgação

A obra de Paulo Roberto Leal ocupa a Galeria Galatea com uma proposta que tensiona o rigor geométrico e a experimentação material. Em cartaz nos Jardins, a exposição “Maleabilidades Construtivas” é um convite para redescobrir um artista que soube explodir a assepsia da geometria tradicional.

Leal não se limitou às superfícies rígidas. Ele escolheu o papel, a linha de seda e o acrílico leitoso para criar estruturas que respiram. Suas peças, como a série “Armagens”, apresentada na Bienal de Veneza de 1972, jogam com a opacidade e a transparência. A tridimensionalidade surge comprimida contra o plano, revelando uma geometria que depende da luz e do movimento do espectador para se completar.

Como observamos na curadoria da Galatea, a mostra responde a uma necessidade de revisitar o legado de Paulo Roberto Leal. O artista carioca acabou ficando à margem das narrativas dominantes das últimas décadas. Sua morte precoce nos anos 1990 e o fato de sua obra não se alinhar à retomada da pintura figurativa da época contribuíram para esse hiato.

No entanto, a força de sua pesquisa permanece intacta. A exposição organiza o percurso em dois momentos fundamentais. O primeiro foca na sistemática dos anos 1970. O segundo revela a abertura para cores e padrões urbanos na década de 1980.

A maleabilidade como resistência estética

O trabalho de Paulo Roberto Leal é um desdobramento singular da tradição construtiva brasileira. Ele substituiu a frieza industrial por variações sensíveis e táteis. Na série “Cartas”, de 1981, o papel e a linha de seda criam composições de dimensões variáveis que desafiam a estática do objeto único.

A expografia da Galatea reforça essa leveza. Estruturas translúcidas filtram a luz e modulam a percepção das obras. É um diálogo direto com o interesse do artista por formatos de circulação que extrapolam o museu tradicional.

A vitrine documental incluída na mostra é um ativo valioso. Ela apresenta fotografias, catálogos e instruções de montagem que evidenciam o rigor intelectual de Leal. Para a galeria, não se trata apenas de um retorno, mas de reativar uma produção que permanece aberta a novas leituras.

Paulo Roberto Leal provou que a geometria pode ser orgânica e pulsante. Sua obra reinscreve o debate sobre a arte geométrica no Brasil sob uma ótica de maleabilidade e resistência.

Paulo Roberto Leal – Maleabilidades Construtivas

A exposição é uma oportunidade rara de ver reunidos trabalhos históricos de um dos nomes mais inventivos da sua geração.

  • Local: Galeria Galatea (Rua Padre João Manuel, 808 – Jardins, São Paulo).
  • Período: Até 9 de maio de 2026.
  • Horário: Segunda a quinta, das 10h às 19h; sexta, das 10h às 18h; sábado, das 11h às 17h.
  • Entrada: Gratuita.

Com informações de Folha de S.Paulo


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