Existe uma linha quase invisível que une os artistas que criaram dentro de sanatórios. Van Gogh pintou “A Noite Estrelada” enquanto estava internado em Saint-Paul-de-Mausole, no sul da França. Agora, uma pintura de Leonora Carrington feita nas mesmas condições emerge de um silêncio de oito décadas.
A obra se chama “Villa Pilar”. Carrington a criou em 1940, confinada no Sanatório Morales, em Santander, na Espanha. Até este verão europeu, ninguém fora de uma única família a tinha visto em público. Isso muda agora, em Londres.
O colapso de Leonora Carrington: a guerra e a fuga para Santander
Em 1940, Leonora Carrington tinha 23 anos e enfrentava o pior momento da sua vida. As forças nazistas acabavam de invadir a França. Seu companheiro, o artista alemão Max Ernst, estava preso pelas tropas de ocupação.
Sozinha, Carrington fugiu em direção à Espanha. Chegou a Madri em colapso. A crise a levou ao internamento no Sanatório Morales. Ali, ela enfrentou tratamentos que mais tarde descreveu em seu livro de memórias “Down Below” como experiências traumáticas. Entre eles, injeções de cardiazol. Ela comparou aquele período a “estar morta”.
Porém, algo a manteve ligada ao mundo. O lápis.
Villa Pilar: um submundo de figuras híbridas e jardins verdes
O dr. Luis Morales encorajou Carrington a desenhar todos os dias durante o internamento. Desse hábito nasceram duas pinturas: “Down Below” e “Villa Pilar”. Nas duas, o sanatório aparece não como hospital, mas como submundo simbólico.

Em “Villa Pilar”, figuras humano-animais transitam por jardins de verde vívido. O céu, por exemplo, também é verde. Para Carrington, aquela cor carregava de fato significado simbólico. A curadora Vanessa Boni descreve a obra como uma reflexão sobre “transformação interior, metamorfose e alteridade”.
As duas pinturas antecipam, portanto, o universo visual que ela desenvolveria no México nas décadas seguintes: surreal, orgânico, comprometido com o que o olho comum não alcança. A arte não nasceu do trauma. Em outras palavras, nasceu apesar dele.
O segredo guardado por uma família durante oitenta anos
Ao deixar o sanatório, a princípio, Carrington entregou “Villa Pilar” ao dr. Morales. Segundo a curadora Boni, foi “um presente de despedida” em agradecimento ao médico que, apesar dos tratamentos brutais, a incentivou a criar.

Morales guardou a pintura pelo resto da vida. Assim, quando morreu, ela passou para a filha. Ali ficou, em silêncio, por mais de oitenta anos.
A obra só voltou à luz durante as pesquisas para a exposição atual. A equipe do Faro Santander, novo centro de arte na cidade espanhola, localizou a família e convenceu os herdeiros a emprestá-la ao público pela primeira vez.
“Não se trata apenas de exibir o trabalho de uma das artistas mais importantes do surrealismo”, disse Daniel Vega Pérez de Arlucea, diretor do Faro Santander. “Trata-se de reconhecer um capítulo da vida dela profundamente enraizado nessa cidade.”
O Freud Museum e o que “Villa Pilar” representa para a história da arte
“Villa Pilar” chega agora ao Freud Museum, em Londres, integrada à exposição “Leonora Carrington: The Symptomatic Surreal”. A escolha do espaço sem dúvida carrega sentido. O museu ocupa a casa onde Sigmund Freud viveu o último ano de sua vida, após fugir da Viena ocupada pelos nazistas. Duas histórias de exílio diante da mesma perseguição.
Para marcar a revelação da obra, o museu estendeu a exposição até 10 de agosto. Em setembro, ela segue para o Faro Santander, na cidade onde Carrington pintou “Villa Pilar” há 86 anos.
O reencontro é também uma declaração sobre o que a arte pode fazer num momento de violência. Não apenas sobreviver. Em suma: guardar a memória inteira do que a produziu.
Serviço — Leonora Carrington: The Symptomatic Surreal
Freud Museum, Maresfield Gardens, 20, Hampstead, Londres
Até 10 de agosto de 2026
Em setembro: Faro Santander, Santander, Espanha
Com informações de The Guardian
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