Na Vila Curuçá, extremo leste de São Paulo, a Casa do Graffiti abriu as portas para “Poetas de Rua”, exposição coletiva que reúne mais de 20 artistas da cena urbana paulistana. Foi no dia 13 de setembro, um domingo, que visitei a exposição no espaço com curadoria por edital aberto, que ocupa o andar de cima do espaço e fica em cartaz por um mês.
O ônibus sobe a Avenida São Miguel debaixo de chuva. O trajeto é longo, e ele expõe algo que a própria mostra dialogaria comigo: se para mim, vindo do centro de São Paulo, chegar à Vila Curuçá de transporte público foi um desafio surpreendente, para quem vem de fora, para os artistas que moram na região a dificuldade para participar do circuito tradicional que as artes plásticas costumam povoar é rotina. Manter uma agenda cultural viva dentro do bairro (sem depender do deslocamento até o centro) foi tema recorrente entre quem passou pela abertura.


Era final da tarde quando cheguei. O clima fervia dentro do espaço, contrariando a tempestade que caia do lado de fora. A Casa do Graffiti (@casadograffiti) recebeu o público numa garagem, picapes ligadas e a DJ Mari (@mari_mats) comandando o som. O hip-hop na quebrada ditava o ritmo. Enquanto o térreo era a pista, o andar de cima era o partenon das telas.
Nas paredes, trabalhos assinados por diversos artistas plásticos da periferia (um canto reserva ainda espaço para venda de prints, camisetas estampadas da casa e de artistas). A abertura teve pocket shows de PMC Original (@pmcoriginal), Ieda Hills (@iedahills) — que dividiu o palco com Gabriel Diaz (@gabrielldiazz) e Arnaldo Tifu (@arnaldotifu) — e Danilo Skrap (@daniloskrap).













Um espaço que virou ponto de conexão
Robson BóTreze, um dos coordenadores da Casa conversa comigo: “Sou do grafite, produtor cultural, e um dos coordenadores da Casa do Graffiti.” O espaço é tocado pelo coletivo Sou Favela Graffiti (@soufavelagraffiti) — ele, Dumén (@dumeem_nev), Gryllo(@gryllo_one/@grilograffiti) e Cat (@_cat.one) — e nasceu com outro propósito.
“A Casa, no início, era pra ser só um ateliê nosso. Mas hoje ela virou um espaço multicultural. A galera procura pra fazer exposição, se apresentar como DJ, como MC, para workshops… Virou um grande ponto de conexão”, conta.
Já recebeu artistas de outros estados e até da Colômbia, em regime quase de residência: “eles ficam hospedados aqui uns dias, pintam uns painéis com a gente e rola essa troca.”
Sobre o recorte periférico da mostra, BóTreze me conta:
“A gente percebe que o artista da periferia produz muita coisa boa, mas acaba não tendo tanto espaço para expor ou se apresentar nas grandes metrópoles, em lugares como Pinheiros ou Vila Madalena. Fica muito restrito.”
O nome “Poetas de Rua” homenageia o primeiro grupo do PMC e o DJ Dheco, e reúne cerca de 30 artistas de diferentes regiões da cidade…
A curadoria funciona por edital: “Geralmente abrimos inscrição. A galera procura, se inscreve. Já temos exposições fechadas para outubro e novembro.” Em novembro, o foco será o Mês da Consciência Negra, com artistas negros selecionados para fortalecer a narrativa.
Manter a Casa de pé é trabalho constante.
“Hoje ela é independente. A gente busca parceiros e ajuda de custo. No início, tivemos o fomento de Cultura da Periferia (Proac), que nos manteve por um ano e seis meses. Agora estamos tentando de novo, porque pagamos aluguel e as contas normais”, explica BóTreze.
Oficinas técnicas de grafite de três meses e trabalhos externos de pintura ajudam a cobrir os custos — sem transformar o lugar em galeria elitizada.

“O nosso foco é o acolhimento. Queremos manter essa essência de receber as pessoas da rua. O mais importante é trazer esse olhar para a periferia e mostrar que não precisamos ficar reféns só dos lugares badalados do grande centro para ter acesso e consumir arte de qualidade.”
Quem está na parede
“Poetas de Rua” reúne trinta artistas de diferentes regiões da cidade — entre eles JUWS (@eujulia.diario) e Sarah Santiago (@sarahsantiago.br), que tive a oportunidade de conversar e você confere logo após.
Vamos à lista de artistas:
AF (@af.art.af), Ale (@ale.nescrew), Ale140 (@140ale_), AnaShiro (@_anashiro), André Astro (@aastrofotos), Ant Maria (@antmaria), Bruta Flor (@__brutaflor), Bruno Miné (@brunofmine), Carolina Castro (@carolina_castro.art), Carol Perdigão (@cperdig), Chilie (@chilie42), Cicatriz (@cicatriz_015), Cruz (@lucruzzz), Ded50 (@Ded50arts), Dread (@dread_jhonnata), Iluminura (@iluminuraatelier), Jamal (@jamalgraffiti), Lenda (@adrianolenda), Link Museu (@linkmuseu), Noturno (@noturnoo), Paullo Flecha (@opaulloflecha), Rabisque (@me.rabisque), Rellyson 27 (@rellyson27), Samu (@samutattoo), SKINA (@.skina.), TattsGomes (@tattsgomes), Théo (@samueltattooart) e Triagem (@fabiotorrestriagem).
Confira a galeria com os registros de cada obra logo abaixo. As fotos foram feitas na abertura da mostra, na Casa do Graffiti.




























Juws
Entre uma obra e outra, encontro Júlia Gomes Ribeiro — Juws (eujulia.diario) — na sua primeira exposição.

“Eu tô aqui na minha primeira exposição, então a primeira coisa que eu posso falar sobre mim é que eu sou feliz, cara. Sou feliz nesse momento, no agora. […] Essa foi a minha segunda chance de me reencontrar. Então, eu sou artista, acho que posso me definir assim.”
A história começou num aniversário. “Eu convidei duas amigas para irem lá em casa comemorar e comprei telinhas pra gente pintar”, conta.
“Mano, quando eu peguei no pincel e meti a cor… Eu sempre desenhei no sketch, lápis e caneta no preto e branco, mas pegar a tinta, o pincel, sentir deslizando na tela é outra parada. Foi uma emoção tão forte que depois disso eu pintei 20 telas em 20 dias!”
O caminho até a Casa do Graffiti passou por um curso de grafite em Suzano, cidade onde mora.
“Conheci dois professores e um deles postou no Insta que tinha aberto inscrição pra essa exposição, o Poetas de Rua. Eu pensei: ‘Mano, por que não? Tô com 20 telas paradas no sofá de casa, não tem nem mais onde sentar’. Me inscrevi, fiz portfólio, currículo artístico… Foi um processo lindo, de me reencontrar mesmo.”
A tela exposta carrega uma solução caseira: é feita de drywall.
“Meu marido é pintor e, como tela avulsa é bem cara, ele sugeriu usar uma placa de gesso de refugo que ele tinha. A tinta não absorve, desliza perfeito, e a saturação da cor fica incrível. Barato e perfeito!”

A imagem nasceu de uma notícia sobre um casal russo que hasteou, no topo do Empire State Building, uma bandeira contra “essa corrida dos ratos que a gente vive”, com a mensagem: “Quando o poder do amor superar o amor pelo poder, o mundo conhecerá a paz.”
Juws cruzou essa referência com símbolos do reggae — “minha filosofia de vida” — e com a junção das figuras masculina e feminina.
“Eu sou feminista, entendo a importância do protagonismo da mulher, mas se a gente fizer isso desconectada dos homens, a gente não tem acesso. O mundo ainda é muito masculino, a gente precisa estar lado a lado, se ajudando.”
Para outras mulheres, deixa um recado:
“Acredite em você. Porque ser mulher e acreditar em você, muitas vezes, é uma frase desconexa. A sociedade não te ensina isso. Você tem que se reconhecer mulher, se empoderar disso e, só depois, acreditar em si mesma. É um processo.”
Sarah Santiago
Poucos dias antes, Sarah Santiago havia participado do Soul Marginal, no Provisório Bar (um hub multicultural no coração do Centro de São Paulo), e descreve setembro como um mês raro, o primeiro em que emenda uma exposição na outra.

“Tá sendo a minha primeira experiência emendando exposições. De agosto para setembro, tem sido um mês muito movimentado”, conta.
O nome da mostra tocou uma memória pessoal.

“Foi realmente lembrar desse momento, né? Que eu ia circulando pelos saraus da cidade, me apresentando, pintando, levando as minhas telas… improvisando cadeira, lugar pra pendurar a tela, falando sobre o meu trabalho pras pessoas. Pintei na Praça do Forró, em São Miguel, de frente pra estação. Pra mim, é essa trajetória de quem caminha e leva sua arte por diferentes lugares.”
A obra que leva à mostra, “Resistência”, nasceu de uma pintura ao vivo feita na PUC, durante um debate sobre cotas.
“Eu trouxe aquela pintura no processo de trançar, né, o cabelo, a resistência, a autenticidade, e toda essa questão que envolve a trança nagô. Um simbólico da população negra”, explica.
Ao final
“Poetas de Rua” termina o domingo um pouco diferente de como estava quando cheguei, por volta das 17h50. A chuva agora era garoa, já passavam das 21h30, o som tocando na garagem de baixo era a resistência de BoTréze em abandonar as picapes. No entanto, as paredes, muito coloridas, ainda vibravam a energia dos shows, dos artistas e do público que havia passado por ali. A Casa do Graffiti é um lugar para não apenas visitar, mas para se manter na vivência e a exposição Poetas de Rua pode ser a porta de entrada para que você não se aprofunde num universo de pluralidade cultural periférica.
Com exposições já fechadas para outubro e novembro (este último dedicado ao Mês da Consciência Negra), a Casa do Graffiti segue provando, na Vila Curuçá, que a periferia produz e expõe por conta própria.
Serviço: Exposição – Poetas de Rua
Onde: Casa do Graffiti — Av. Coca, 384, Vila Curuçá Velha, São Paulo/SP
Quando: Em cartaz até 11 de outubro
Horário: Terça a sexta, das 13h às 19h | Sábados e domingos, das 13h às 18h
Bilheteria: Entrada gratuita
Informações adicionais: Loja no local, com venda de telas, prints e lançamentos de bonés e camisetas (@lojacasadograffiti)
Visitas agendadas para grupos: (11) 2511-6564 ou casadograffitioficial@gmail.com
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