André Ricardo reencontra a manhã depois de dois anos de ateliê

Foto: Divulgação / Almeida & Dale

André Ricardo apresenta nove pinturas a têmpera e monotipias inéditas na exposição Mensageiro da manhã, na Almeida & Dale, em São Paulo.

André Ricardo apresenta uma nova etapa de sua pintura em Mensageiro da manhã, exposição individual que reúne nove obras a têmpera e um conjunto inédito de monotipias. Assim, a mostra está em cartaz na Almeida & Dale, em São Paulo, até 19 de setembro de 2026, com entrada gratuita.

O conjunto resulta de aproximadamente dois anos de pesquisa em ateliê. Nesse intervalo, o artista reduziu a presença pública e se afastou das redes sociais. A escolha preservou um tempo de elaboração distante da velocidade digital, enquanto sua produção ampliava o repertório formal e o papel do desenho.

O que muda na pintura de André Ricardo

A exposição marca uma inflexão na trajetória de André Ricardo. As formas aparecem mais fluidas, e a tinta assume uma superfície acetinada ou aquosa. O resultado não abandona a construção meticulosa da imagem. Pelo contrário, desloca a atenção para o modo como cor, transparência e desenho se organizam na tela.

Na pesquisa do artista, a têmpera envolve todas as etapas da pintura. Assim sendo, o processo começa na preparação do suporte e passa pela manipulação de pigmentos e aglutinantes. Depois, cada camada constrói a luminosidade da cor e define o desenho das figuras.

Em algumas obras, as marcas do desenho e das pinceladas permanecem visíveis. Em outras, por exemplo, as transições cromáticas se dissolvem, até que a própria cor funcione como desenho. Essa oscilação deixa o processo à vista, mas não o transforma em espetáculo. A matéria pictórica continua subordinada à construção da imagem.

A primeira apresentação de monotipias amplia esse campo de investigação. Diferentemente da série de pinturas, o conjunto introduz uma técnica baseada na impressão de uma imagem única. No contexto da mostra, as monotipias funcionam de fato como extensão da pesquisa gráfica que atravessa o trabalho de Ricardo.

Por que a exposição se chama Mensageiro da manhã

O título, a saber, vem de uma das pinturas de destaque da mostra. Para André Ricardo, a tela concentra uma ideia de renovação e abre o percurso que o visitante encontra na sala expositiva. A manhã aparece, portanto, como imagem de uma luz que nasce e retorna diariamente.

A associação também alcança o próprio gesto de criar. Dessa forma, na apresentação institucional da exposição, o artista relaciona a pintura à experiência do presente e a uma percepção particular do tempo. Ele contrapõe esse exercício à aceleração imposta pelo mundo contemporâneo, sobretudo no ambiente virtual.

Há um dado concreto nessa formulação: a nova produção nasceu depois de um período de recolhimento, pesquisa e afastamento das redes. Assim, a manhã não funciona apenas como tema. Em outras palavras, ela nomeia um reinício de procedimento, escala e atenção.

O texto crítico de Renato Menezes, curador da Pinacoteca de São Paulo, acompanha as obras. Segundo o material da galeria, a leitura destaca as formas fluidas, a presença do desenho e o novo tratamento da tinta.

Paisagem, heranças culturais e construção da imagem

A mudança formal não ocorre isoladamente. André Ricardo incorporou novas formas e figuras, relacionadas a diferentes heranças culturais brasileiras. A paisagem e a luz da Ilha do Ferro, no sertão alagoano, também participam dessa etapa. O artista visitou a região durante o desenvolvimento da pesquisa.

André Ricardo, Almeida & Dale
Foto: Divulgação / Almeida & Dale

Sua pintura opera no encontro entre o cânone da história da arte ocidental e uma matriz cultural brasileira. Nesse cruzamento, surgem formas arcaicas, simbólicas e atemporais. Elas não compõem uma narrativa fechada. Aparecem como fragmentos de um universo visual aberto a associações diante do olhar.

Por isso, a exposição não se limita a apresentar uma mudança técnica. A têmpera organiza a superfície, mas a questão permanece mais ampla. O que está em jogo é como uma imagem pode guardar tempo, luz e memória sem se tornar ilustração de uma ideia anterior.

Quem é André Ricardo

Nascido em São Paulo, em 1985, André Ricardo vive e trabalha na cidade. O artista é formado em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em 2017, foi indicado ao Prêmio PIPA. Cinco anos depois, concluiu a residência Residency Unlimited, em Nova York.

André Ricardo, Almeida & Dale
Foto: Divulgação / Almeida & Dale

Sua trajetória inclui exposições individuais na Hutchinson Modern & Contemporary, em Nova York, e na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Também expôs no Museu de Arte de Ribeirão Preto, no Addaya Centre d’Art Contemporany, em Mallorca, e no Centro Cultural São Paulo.

Entre as exposições coletivas recentes estão o 37º Panorama da Arte Brasileira, no MAM São Paulo, e Brazil: Tempera Reimagined, em Londres. Na mesma cidade, participou de André Ricardo and Rubem Valentim: Dialogue. A lista inclui ainda Mãos – 35 anos da mão afro-brasileira, Direito à Forma e Dos Brasis: Arte e pensamento Negro.

As obras do artista integram coleções do Instituto Inhotim, MAC-USP, MAM São Paulo e Pinacoteca de São Paulo. Também estão em acervos da Casa da Cultura da América Latina da Universidade de Brasília, do MARP e da Casa do Olhar Luiz Sacilotto.

A exposição na Almeida & Dale coincide com a recente representação do artista pela galeria, anunciada em julho de 2026. A parceria amplia o contexto institucional da nova pesquisa de Ricardo.

Serviço

ExposiçãoAndré Ricardo: Mensageiro da manhã
Período15 de agosto a 19 de setembro de 2026
LocalAlmeida & Dale — Rua Fradique Coutinho, 1360, São Paulo (SP)
VisitaçãoSegunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 16h
EntradaGratuita

Com informações de Almeida & Dale.


Descubra mais sobre Realidarte

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

You May Also Like
Fachada de parede de tijolos com cartaz da exposição De Musa ao Protagonismo e placa do Ateliê Casarão com arroba @ateliecasaraoipiranga
Leia mais!

De Musa ao Protagonismo: o Ateliê Casarão lotou um sábado e as obras ainda falavam quando o silêncio chegou

Curadoria de Bianca Foratori reúne 37 artistas no Ateliê Casarão Ipiranga numa abertura que durou o dia inteiro…
Leia mais!
Vogue visita a casa da Anitta, cantora e popstar
Leia mais!

Casa da Anitta: quadros que celebram brasilidade, ancestralidade, luxo e elegância

Eu sei, você tá aqui para ver um pouco da casa da Anitta. Prometo que, sim, você vai…
Leia mais!
Parede-galeria composta por diversos quadros florais de diferentes tamanhos e estilos, criando uma narrativa visual harmoniosa e sofisticada.
Leia mais!

Florais: a poética da natureza na curadoria de espaços contemporâneos

Desvende como a nova coleção de florais da Realidarte e técnicas de curadoria transformam ambientes em refúgios de sofisticação e bem-estar A natureza sempre foi a musa mais resiliente da história da arte.
Leia mais!
Juliana Pinho, Retinta, em sua exposição no Provisório Bar, em São Paulo
Leia mais!

Juliana Pinho (Retinta): descubra a cor e potência do pertencimento

A entrevista com a Juliana Pinho, a Retinta, aconteceu numa quarta-feira de abril, dia de roda de Samba…
Leia mais!
Jean-Auguste Dominique Ingres A Virgem do véu azul, 1827
Leia mais!

20 obras imperdíveis do acervo do MASP: uma jornada pela História da Arte em São Paulo

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), com sua arquitetura icônica de Lina Bo Bardi…
Leia mais!
A obra "A Incredulidade de São Tomé" de Caravaggio, explorando o tenebrismo, o realismo visceral e a transição entre o empírico e o divino
Leia mais!

Obra de Caravaggio: A Incredulidade de São Tomé e o Realismo

O dedo na chaga — a obra de Caravaggio e a anatomia da fé no quadro a Incredulidade…
Leia mais!