Setembro está sendo o primeiro mês da minha vida em que uma exposição emenda na outra. Antes de chegar à Vila Curuçá, eu tinha acabado de sair do Soul Marginal, no Provisório Bar. Entre uma coisa e outra, ainda com convites para exposições coletivas. Não é cansaço o que sinto com essa agenda, na verdade. É uma espécie de vertigem boa, sabe? Aquela coisa de quem não sabe mais separar o que é trabalho do que é vida.
Poetas de Rua: um nome que já era meu antes da exposição existir
Teve uma época em que eu circulava pelos saraus da cidade levando minhas próprias telas debaixo do braço (improvisando cadeira, lugar pra pendurar a obra, contando pra quem passava o que eu tinha pintado). Pintei na Praça do Forró no Sarau do MAP, em São Miguel, de frente pra estação. Não tinha curadoria nenhuma, sabe o que tinha? Essa vontade enorme de mostrar as cores que eu enxergava o mundo e a rua era a única galeria disponível.
Por isso, para mim, participar dessa mostra na Vila Curuçá não foi repetir uma experiência. Foi, na verdade, reencontrar sem dúvida uma versão mais nova de mim (aquela Sarah Santiago que ainda não sabia que aquilo tudo tinha nome e seria minha trajetória).
Resistência, trançada
A obra que levei para a Casa do Graffiti se chama “Resistência”. Essa obra nasceu de uma pintura ao vivo que fiz na PUC, num momento em que o campus discutia cotas e políticas públicas. Ali, comecei a pintar o processo de trançar o cabelo; a trança nagô, a autenticidade, a resistência que carrega uma população inteira num gesto que parece só estético e não é.







É a peça que eu queria que estivesse numa mostra pensada por e para artistas periféricos, porque ela nasceu desse lugar de discussão coletiva (todas as fotos foram feitas pelo Jefferson Gonçalves).
O preço que a gente não aprende a cobrar
Participar de exposições é uma coisa muito interessante quando você é uma artista periférica e a primeira coisa que você pensa é em dividir sua expressão com o mundo. De repente, você se dá conta de que há a necessidade de dar valor monetário ao seu trabalho, mas parece um pecado.
Tem uma conta que poucos cursos de arte ensinam a fazer: quanto vale a nossa hora, o material gasto, a tinta, a tela (e quanto o mercado está disposto a pagar por isso). Já vendi uma obra por 50 reais, um valor que nem cobriu o que gastei nela, mas que era o dinheiro que eu precisava naquele momento. Ainda hoje eu não sei responder direito essa equação. O que sei é que ela está sempre ali, embaixo de cada peça pendurada numa parede como as da Casa do Graffiti.
Prints, feiras de arte, essas engrenagens do mercado eu ainda mantenho a distância (talvez porque meu trabalho é muito de tela, de métodos tradicionais). Mas reconheço o que o print faz de bom: ele é, muitas vezes, uma das formas de alguém que gosta de uma obra e não pode comprar a tela levar o Print pra casa, sem que isso tire o valor de autenticidade, e ainda assim, apoiando a trajetória do artista.
A cena periférica na arte de SP

O que a Casa do Graffiti está fazendo (manter um circuito cultural vivo dentro do próprio bairro, sem depender do deslocamento até os polos badalados) é o tipo de trabalho que não aparece nas manchetes, mas sustenta uma cena inteira. Eu sou prova disso: comecei numa praça, sem edital, sem curadoria.
Hoje, minha “Resistência” está pendurada numa sala de teto alto, na Vila Curuçá, ao lado de mais de vinte outros artistas que também passam por corres parecidos. Mas, eu acredito no poder que a arte periférica tem de ocupar territórios culturalmente. Foi assim com minhas telas em duas edições da ExpoFavela, no Museu da Cidade e recentemente no centro de São Paulo, no Provisório.
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